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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

DO TRAUMA PSICOLÓGICO E DA NECESSIDADE DE SUA SUPERAÇÃO

Cipriano Luckesi

25/06/2012

Na história da humanidade, traumas sempre existiram. Contudo, só recentemente, a partir dos estudos de Freud, em finais do século 19 e primeira metade do século 20, iniciamos a tomar consciência de sua fixação em nossa memória inconsciente, assim como de sua atuação automática e intempestiva no cotidiano de nossas vidas. 

Eles, de fato, se manifestam nas “entrelinhas” do nosso dia a dia, através de reações emocionais automáticas, tais como: medo, insegurança, raiva, impotência, agressividade, dissimulação..., todos em níveis excessivos, ou seja, reações desproporcionais às mais variadas experiências do presente.

A afirmação de Freud é de que uma reação emocional desproporcional a uma circunstância do presente não é do presente, mas sim do passado, querendo com isso quer dizer que, quando essa fenomenologia ocorre, dá-se a transferência de uma reação do passado, que aprendemos no passado, para uma circunstância do presente. Nossas reações intempestivas têm a ver com as marcas do nosso passado pessoal, que se reproduzem no presente.

Usualmente, dizemos que traumas do passado geram sintomas observáveis no presente. Os sintomas são sinais de que o trauma ainda está fixado em nosso inconsciente e, de lá, ele atua automaticamente. Os traumas estão escondidos, submersos, no inconsciente e de lá atuam. Na metodologia de investigação do materialismo dialético se diz que “a aparência esconde uma essência”, isto é, o que aparece (o superficial) sinaliza que há outra informação por detrás (o essencial). De forma semelhante ocorre com o trauma na vida individual. Há um dado oculto que exige investigação e integração. De certa forma, ocorre como desfia a esfinge: “Decifra-me ou te devoro”!

Nossas reações intempestivas no cotidiano nos sinalizam que um trauma nos diz: “Preste atenção em mim. Estou aqui. Se desejar abrir mão de mim, terá que desvendar-me, compreender-me e incorporar-me como algo que ocorreu no passado, mas não está ocorrendo mais”.

Afinal traumatizados por uma fenomenologia --- seja ela qual for ---, estamos sempre a “espera” de que o que aconteceu vai acontecer novamente, mas não sabemos quando e, por isso mesmo, nosso inconsciente permanece atento e defendido, Ao primeiro e mais leve sinal de que alguma coisa parecida com aquela que ocorreu no passado venha a ocorrer, a reação é imediata. Essa expectativa e esse modo defendido de ser, que atuam de maneira inconsciente, nos impedem de ser e fazer o que desejamos e como desejamos.

Mais recentemente --- dos anos 1980 para cá ---, os neurologistas, usando investigação por imagens, têm mapeado em nosso sistema nervoso onde se sediam determinados comportamentos nossos e, nesse processo, descobriram que as memórias emocionais traumáticas têm sua sede neurológica nas amígdalas cerebrais, que se localizam uma em cada um dos hemisférios cerebrais: uma no direito e outra no esquerdo. Amígdala, em grego, significa amêndoa, que é a forma material como elas se apresentam. Descobriram mais: que elas atuam, automaticamente, de forma independente de nossos atos de vontade; isso significa que, dada determinada circunstância, se ela tiver alguma semelhança com uma experiência negativa do passado, as amígdalas disparam intempestivamente seus atos de defesa e, dessa forma,  nos “obriga” a reagir. O que os neurologistas recentes têm descoberto confirmam, pois, as intuições clínicas de Freud.

Como, ao longo do tempo, os traumas emocionais têm sido trabalhados? Freud propôs a “livre associação” como recurso de acesso e elaboração de experiências encapsuladas no inconsciente; Wilhelm Reich e seus seguidores, tais como Alexander Lowen com a Bioenergética e David Boadella com a Biossíntese, propuseram, por caminhos variados, o contato com a experiência essencial de cada um, ultrapassando as camadas superficiais da personalidade; variadas abordagens do autodesenvolvimento propuseram os recursos de visualização criativa, assim como outros propuseram meios regressivos. Nós, do Curando a Criança Ferida Dentro de Nós, propomos uma atividade residencial, onde cada participante vivencia sucessivas atividades investigativas e integrativas, na perspectiva de acessar, dissolver e integrar as experiências traumáticas do passado, que atuam negativamente em nossas vidas no presente.

O que pesquisadores, psicólogos, psicoterapeutas, terapeutas, das mais variadas abordagens, têm buscado, ao longo dos últimos cem anos, é encontrar e praticar recursos pelos quais a vida possa ser melhor e mais plena para além dos nossos traumas. Importa que a vida possa ser mais saudável para cada um de nós individualmente, assim como para a coletividade da qual participamos; afinal, para a humanidade.

A expressão do campo emocional, no momento em que vivemos, está entre aqueles que estão mais distantes da satisfatoriedade. Os sinais desse fato encontram-se nas desavenças, desentendimentos e manipulações no cotidiano, tanto individual como coletivo. Temos indivíduos contra indivíduos, etnias contra etnias, tradições religiosas contra tradições religiosas, nacionalidades contra nacionalidades... Por enquanto, devido nossas machucaduras no passado, não temos conseguido olhar --- para além das diferenças e singularidades ---  para todos como seres humanos iguais com direito à vida, nos seus mais variados sentidos.

Cuidar dos traumas do passado, do ponto de vista individual, é um modo de aprender a viver melhor conosco mesmos e com o meio que nos cerca; e, do ponto de vista coletivo, é um modo político-social de encontrar e estabelecer a paz entre grupos humanos e povos. Para além dos nossos traumas emocionais, poderemos viver em harmonia conosco, com os outros, com o meio. Em paz!


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