Avaliação do Usuário
PiorMelhor 

Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

MAPAS E IMAGENS CÉREBRO-MENTAIS E ATIVIDADES DE AUTODESENVOLVIMENTO

Cipriano Luckesi

06/07/2012

Antônio Damásio, no seu livro E o cérebro criou o homem, Companhia de Letras, 2011, nos capítulos iniciais, trabalha a questão da homeostase, isto é, o modo como os seres vivos buscam a regulação para garantir a sobrevivência.

Num dado momento, ele diz que o cérebro produz “mapas” minuciosos e sucessivos da situação em que se encontra o corpo em termos das condições de sua sobrevivência e, a seguir, transforma os mapas em “imagens”. Esses “mapas” e “imagens” constituem a base das “decisões” que o cérebro toma, tendo em vista manter o organismo em equilíbrio, garantindo a vida.  Por si mesmo, independente de termos consciência ou não, o cérebro opera tomando “decisões” e garantindo nossa sobrevivência e bem-estar.

Por exemplo, o cérebro, entre milhares de outros controles regulatórios, só para exemplificar, controla nossa respiração, nossa circulação sanguínea, nossa digestão, os mecanismos de defesa do nosso organismo... Também pode ser enganado e, então, toma decisões inadequadas, como ocorre com as denominadas doenças autoimunes, por exemplo.

Os mapas e imagens --- resultantes das “investigações” que nossa central cerebral obtém de fração em fração de segundo do nosso viver --- consituem a base das “decisões” que conduzem a homeostase.

No nível da experiência consciente, também construímos mapas e imagens que se manifestam como “consciência de” alguma coisa, situação, pessoa, instituição... Nossas relações com o mundo exterior, assim como com nosso corpo, também produzem mapas e imagens que permitem decidir, serena ou intempestivamente, o que fazer. À semelhança de um outdoor eletrônico, nosso cérebro está constantemente produzindo e registrando mapas e imagens da realidade mutante e, dessa forma, nos permite “conhecer” o que está ocorrendo, a cada fração de segundo, e, assentado sobre essa base, possibilita a orientação de nossa ação, ocorra ela de forma consciente ou inconsciente.

No nível puramente do organismo, nosso cérebro percebe o que está ocorrendo e determina as ações de equilíbrio --- a homeostase. Ainda bem que ocorre dessa forma. Imaginemos se tivéssemos que tomar decisões conscientes sobre o ato de respirar, sobre a circulação sanguínea, sobre as necessidades de maior ou menor quantidade de adrenalina no sangue, etc. Certamente, em função dos milhares de mapas e imagens, criados pelo cérebro a cada instante, nós chegaríamos a uma boa confusão, com consequentes decisões também confusas e inadequadas. Então, nosso sistema nervoso, sabiamente, opera a homeostase independente de nossas decisões conscientes.

No modo psicológico consciente de atuar do ser humano, se desejamos prosseguir na vida, necessitamos das investigações que criem mapas e imagens, que servem de base para nossas decisões e concomitantes ou subsequentes ações. Todavia, importa estarmos cientes de que esses mapas e essas imagens, à semelhança do que ocorre com os organismos vivos, podem ser produzidos por “investigações que distorcem a realidade”, que, por sua vez, usualmente, também conduzem a soluções inadequadas, no caso, nossas neuroses, que nada mais são do que os mais variados modos disfuncionais de ser e agir.

Bert Hellinger, terapeuta alemão, criador da metodologia da Fenomenologia das Constelações Familiares, trabalha com compreensão semelhante a essa, relativa aos mapas e imagens, ainda que ele não os aborde de forma absolutamente equivalente a que descrevemos acima. Para ele, as imagens expressam “um campo organizado de energia”, sobre as quais, na maior parte das vezes, não temos consciência, e, dessa forma, atuam em nossas vidas pessoais, tanto de forma positiva como negativa. Necessitamos de reconhecê-las e reorganizá-las de modo que atuem positivamente no nosso dia a dia.

Para isso, ele usa o método da fenomenologia das constelações, inicialmente, da família e, depois, das instituições e de fenômenos da existência em geral. A fenomenologia que se expressa através de “uma imagem” --- usualmente distorcida em função de múltiplos fatores existenciais do passado ---, com um pouco de ajuda, pode chegar a “outra imagem” (mais organizada) e, dessa forma, produzir o movimento curativo.

Com isso em mente, podemos pensar que, em nossas vidas, assim como em nossas atividades de autocuidado, variados e sucessivos mapas e imagens, formados no passado biográfico, podem se confrontar com um novo mapa ou com uma nova imagem, ou ainda, com variados e novos mapas e imagens.

Usualmente, aquilo que nos dificulta viver bem no cotidiano está sintetizado numa imagem que criamos ao longo da vida, por meio de nossas sucessivas experiências, que nem mais sabemos quais foram. Entranharam-se em nossa existência psico-corporal e/ou espiritual, tais como nossas crenças, nossas representações sociais, nossos modos de ser, de agir, de expressar, de reagir... São componentes de nossa vida que têm como base os mapas e as imagens que elaboramos das situações de nossa vida; imagens sedimentadas e/ou internalizadas em nossas experiências existenciais, que podem não ter chegado à consciência, ou, se chegaram, já não sabemos mais quando isso teria ocorrido.

São mapas e imagens aprisionados no nosso inconsciente, que ainda servem de “guia” para gerir nossas ações no dia a dia.

Nas atividades psicanalíticas, psicoterapêuticas, terapêuticas --- afinal, de autodesenvolvimento ---, procuramos descobrir os “mapas e imagens” que criamos da realidade em algum momento de nossas vidas e que se fixaram em nosso inconsciente e, de lá, atuam em nossas vidas, sem que já não tenhamos consciência de como foram construídos nem do modo como atuam em nosso cotidiano. Contudo, com certeza, atuam.

Quando conseguimos aperceber-nos do que está ocorrendo (muitas vezes, nem isso conseguimos realizar), usualmente, temos consciência dos sintomas --- isto é, daquilo que ocorre, que emerge, no imediato de nosso dia a dia---, mas, com isso, ainda estamos longe de saber quais são efetivamente os mapas e imagens que sustentam nosso modo de ser visivelmente distorcido e onde eles estão sediados.

Então, num processo de cuidados psíquicos, corporais e espirituais de nós mesmos --- caso nos dediquemos a essa busca ---, usualmente desvendamos mapas e imagens “envelhecidos” que ditam, do nosso inconsciente, como devemos ser e como devemos agir; modos de ser e agir que já não se ajustam mais às nossas necessidades. Eles podem já ter sido adequados e úteis em algum momento do nosso passado, mas, agora, já não o são mais. Necessitam ser transmutados, a fim de que possamos viver bem no aqui e no agora; no presente.

No seio dos incômodos gerados por esses “mapas e imagens”, elaborados no passado, assim como no seio do desejo de viver melhor e de forma mais saudável, o passo subsequente será delimitar esses mapas e imagens, que, agora, dificultam a vida e quais são suas fontes. Eles nasceram em algum ou em vários momentos de nossa biografia.

Quais são os mapas e as imagens que formamos do “nosso mundo e do mundo que nos cerca” e que nos guiam em nosso cotidiano? Onde nasceram? Qual sua origem? Origem que pode estar situada em momentos desde antes de nossa concepção até o presente momento de nossas vidas, cujos registros estão em nossa memória inconsciente.

Essa investigação nos permite desvendar tanto os mapas e as imagens de como somos, de como nos fizemos ao longo da vida e de como agimos, mas, simultaneamente, nos permite, se o desejarmos, criar novos mapas e  novas imagens que atuarão em nossas vidas, na perspectiva da homeostase, isto é, na busca de soluções que nos possibilitem viver melhor.

Então, mapas antigos, e suas correspondentes imagens, serão desvendados e integrados em novos mapas e novas imagens, que guiarão nosso modo de ser e estar na vida e no mundo.

Isso ocorre de modo automático e imediato, ou seja, descobertos os antigos mapas e suas imagens, assim como suas fontes, que, por sua vez, conduzem ao desvendamento e criação de novos mapas e novas imagens, já estaríamos curados psico-corporal e espiritualmente?

Certamente que o sucesso desse processo demanda algum tempo. Investimos um tempo --- o tempo que temos de vida --- para gerar os mapas e as imagens que nos dão, hoje, orientação na vida; agora, haverá necessidade de um novo tempo para que novos mapas e novas imagens possam implantar-se, sedimentar-se e produzir novos efeitos, certamente, mais integrados, mais funcionais e, por isso mesmo, mais saudáveis.

Nos cuidados de autodesenvolvimento, existe sempre um “antes” e um “depois”. Caso nos fixemos no “antes”, o “depois”, ainda que seja vislumbrado, não será atingido.  Claro que pequenas mudanças poderão ocorrer, porém não o pleno “depois”. Isso exige investigação, criação de novos mapas e novas imagens, e tempo de sedimentação. Afinal consciência, desejo e investimento.


_____________________________________________________________________________________________

OBSERVAÇÕES

  • Caso tenha desejo de fazer algum comentário ao texto, enviá-lo pelo "Fale conosco" deste site.
  • Informar se deseja que seja publicado seu "Comentário".

 _____________________________________________________________________________________________