Avaliação do Usuário
PiorMelhor 

Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

COMO OS TRAUMAS PSICOLÓGICOS ANUNCIAM SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA?

(semiologia do trauma) 

Cipriano Luckesi

25/07/2012

Traumas são marcas impressas em nosso ser e suas fontes podem ser variadas, desde as impregnações sócio-culturais até as marcas fixadas no corpo e no inconsciente de cada um de nós, através de variados tipos de abusos, tais como os sexuais, as surras, as exclusões múltiplas, os eventos autobiográficos negativos e outros mais.

Dizíamos em artigo anterior, neste site, que “traumas sempre existiram na humanidade” e, certamente, continuarão a existir, desde que foge à capacidade do ser humano evitá-los em sua totalidade. Acontecimentos que podem causar trauma em alguém são os mais variados. Cada um de nós pode ser traumatizado por certos motivos, que não traumatizam outros; e outros podem ser traumatizados por outros motivos, que certamente não nos traumatizam. Os eventos externos podem ser equivalentes, porém os traumas são autobiográficos.

Antônio Damásio, neurologista português, diz que os cérebros de todos os seres humanos, do ponto de vista biológico, são iguais --- todos tem os lobos frontais, temporais, parietais, occipitais,... Todavia, o cérebro de cada ser humano é individual, devido ter sua configuração interna moldada segundo dos registros biográficos de cada um. Desse modo, os eventos --- como as bases fisiológicas --- podem ser semelhantes, mas a marcas traumáticas são singulares em cada indivíduo. Todos os terapeutas e psicoterapeutas já experienciaram isso em seus consultórios. A ciência pode falar pela média, mas os terapeutas e os psicoterapeutas necessitam escutar o individual, na sua singularidade.

Como os traumas se manifestam? Vamos tomar o termo semiologia como “tratado dos sinais”. Então, a pergunta se reformula assim: que sinais revelam que há uma marca traumática na experiência de cada um de nós?

Freud, em finais do século XIX e inícios do XX, registrou a compreensão de que uma reação emocional desproporcional a uma circunstância do presente não é do presente, mas sim do passado. Com isso queria dizer que nossas marcas traumáticas do passado atuam em nossas vidas como se “aqueles fatos que nos marcaram em algum momento passado de nossas vidas” estivessem acontecendo aqui e agora. Descobriu isso através da observação clínica das projeções e contra projeções emocionais, que ele denominou de transferência e contratransferência.

Como isso se dá? Por um comando do inconsciente alguém “confunde” um seu professor com seu pai, e, então, projeta sobre ele incômodos que tem com meu pai. O professor poderá, por seu turno, contratransferir, projetando sobre o estudante sua raiva contra uma criança ou um adolescente “petulante”. As reações, de ambos os lados, vem automáticas e intempestivas. E, daí, vem a confusão.

Por outras vezes, a projeção tem sua fonte em alguma experiência de autoridade exacerbada do passado que trouxe algum sofrimento; agora, parece ao estudante que o professor, usando seu papel, exacerbar uma conduta (e, muitas vezes, efetivamente o faz); então o estudante reage intempestivamente. “Antes de ser atacado, ataca”, antecipadamente defendendo-se de alguma coisa que acredita, num lapso de tempo, que vai acontecer. Não tem raciocínio e decisão, tem só ação.

A reação emocional intempestiva não é “limpa”, “autêntica”; está assentada sobre alguma experiência negativa abrupta ou longa do passado. Ela emerge de uma fonte do inconsciente que diz: “Vai acontecer de novo. Não dá para esperar.”

Nesses últimos trinta anos, vários neurologistas vêm buscando o lugar do nosso cérebro, onde se sediam as reações intempestivas, automáticas e desproporcionais que, por vezes, temos diante de algum evento qualquer. Descobriram que a sede dos medos, que nos obriga a reagir intempestivamente está nas amigdalas cerebrais. A palavra amígdala, em grego, significa “amêndoa”, e esta é a forma que tem dois pequenos sítios em nosso cérebro (um em cada um dos hemisférios), onde se sediam as memórias do medo, decorrentes de experiências passadas. Descobriram que as “amígdalas agem por si mesmas”, não obedecem a ninguém. Quando pressentem uma ameaça, agem. Então, ao primeiro sinal de uma ameaça, cuja marca esteja em sua memória, elas disparam o comando automático e intempestivo de uma reação de defesa. À medida que parece que virá um ataque, disparam seus comandos. Se supõe, esse é o local onde se sedia o inconsciente reprimido freudiano; o inconsciente que atua contra as ameaças do mundo sejam elas quais forem, verdadeiras ou aparentes. O lema é, na “dúvida”, é melhor atuar.

Sem entrar em confronto com as compreensões de Freud, David Grove, um psicólogo neozelandês, que viveu nos Estados Unidos da América do Norte, criador da terapia da metáfora, definiu que nossos traumas se manifestam (dão seus sinais de sua presença) através de metáforas --- uma linguagem, de certa forma, cifrada: alguma coisa que é, mas também não é. Segundo sua compreensão, através das metáforas, os traumas dizem: “Prestem atenção em mim. Estou aqui”.

Por exemplo, posso dizer: “Quando vou falar em público, me dá um nó na garganta”. De fato, não há nó nenhum na garganta, mas parece que sim. Que será que aconteceu a determinada pessoa, no passado, que a faz sentir-se ameaçada diante de um público e faz com que apareça um “nó na garganta?” E lá se vão tantos outros exemplos: “Tenho um branco na cabeça”; “Tenho uma pedra no estômago”; “Tenho um buraco no estômago”; “Sinto como se as pernas estivessem amarradas”; “Parece que tenho um saco de feijão nas costas”.

Nada disso é real, mas também tudo isso é real. Uma metáfora --- um sinal --- de que por debaixo, no recôndito do inconsciente, há alguma coisa que necessita de ser desvelada e cuidada, se queremos viver melhor, sem as reações automáticas e intempestivas que atrapalham nossas vidas cotidianas.

Além desses sinais, também, por vezes, apresentamos modos automáticos e intempestivos de agir e reagir em função de impregnações sócio-culturais, históricas e familiares que configuraram nossas vidas. Nelson Mandela, Presidente da África do Sul, que conduziu o seu país ao fim do regime do apartheid, em sua autobiografia --- Uma longa caminhada até a liberdade ---, relata um episódio bem ilustrativo desse fenômeno. Estava na Etiópia e embarcou num avião de carreira e deparando-se com um piloto negro, sentiu-se ameaçado em viajar naquela aeronave e diz que o pensamento que lhe veio era: “Como? Um negro não pode pilotar um avião desses!”. Continuou ele relatando sua experiência dizendo que necessitou de uns bons quinze minutos para acalmar-se e perceber o quanto o pânico que tomou conta dele vinha de um preconceito que aprendeu, como negro na África do Sul. Havia incorporado um preconceito que estava atuando sobre ele. Imaginemos a situação: um negro --- o líder máximo na África do Sul da luta contra o apartheid --- afirmando dentro de si que “um negro não poderia pilotar um avião comercial como aquele”. Que força tem uma impregnação sociocultural, histórica ou familiar sobre cada um de nós! Quantas dessas determinações atuam sobre cada um de nós? O que herdamos de nossa cultura de origem, da cultura na qual fomos educados, dos modos de ser de nossos familiares (avós, pais, tios, agregados, vizinhos, irmãos, professores, religiosos...)?

Como curar os traumas? Importa que sejam acessados, dessensibilizados e reprocessados através de sua ressignificação. O evento é traumático quando não consegue ser compreendido e assimilado como alguma coisa possível de acontecer. O evento que traumatiza é invasivo, fere e é devastador. É incompreensível.

As proposições de recursos para a restauração da vida, para além do trauma, foram sendo elaborados ao longo do tempo. Freud propôs a “livre associação de ideias” como o meio de acesso aos conteúdos inconscientes reprimidos, que, tornados conscientes, propiciariam sua dessensibilização e seu reprocessamento. Wilhelm Reich propôs o contato consciente com as partes do corpo que guardam as memórias traumáticas, trazendo-as à tona para sua compreensão e reprocessamento; David Boadella propôs o contato com o conteúdo que dificulta a vida e, a partir daí, permitir que o sistema nervoso vá à busca da cena traumatizante para, ao mesmo tempo, dessensibilizá-la e reprocessá-la. David Grove propõe a linguagem limpa. Isto é, sem qualquer julgamento ou qualificação, como meio de acessar e reprocessar a cena traumática. E, assim outros, como Gerda Boyesen, Alexander Lowen, Peter Levine... As possibilidades de recursos, afinal, são muitas. Cada recurso proposto indica uma porta de acesso à cena traumática para a sua dessensibilização e reprocessamento. O uso de cada um deles requer conhecimento, isto é, domínio científico e técnico, além de cuidados e centramento de quem os utiliza.

O acesso à cena traumática é o ponto de partida para sua dessensibilização e reprocessamento. Uma cena traumática desaparecerá da memória? Certamente que não, à medida que é memória; todavia, não terá mais a capacidade de atuar automática e intempestivamente, desde que, agora, não está mais escondida nem mais é ameaçadora, desde que conhecida e dominada.

Isso ocorrerá, como um milagre, num vapt-vupt? Certamente que não. Há um caminho de acesso e, a seguir, os cuidados. Assemelha-se ao conjunto de atos para cuidar de um ferimento fisiológico: acessar o ferimento e, por sucessivas vezes, fazer sua assepsia, colocar uma medicação e dar tempo para que a cura se faça da periferia do ferimento para o seu centro. Do mesmo sensível para o mais sensível. Por isso, o uso dos recursos deverá ser realizado com cuidados necessários.

 

_____________________________________________________________________________________________

OBSERVAÇÕES

  • Caso tenha desejo de fazer algum comentário ao texto, enviá-lo pelo "Fale conosco" deste site.
  • Informar se deseja que seja publicado seu "Comentário".

 _____________________________________________________________________________________________