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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMA PSICOLÓGICO E MEMÓRIA TRAUMÁTICA

Cipriano Luckesi
28/08/2012

Seguindo uma tradição de compreensão que se inicia no final do século XIX, com a psicossomática, e segue até hoje através de variados caminhos, sabemos que a memória tem um componente corporal essencial.

Wilhelm Reich afirmou que o corpo é nossa história de vida congelada e, psicoterapeuticamente, sabemos o quanto nossas memórias efetivamente estão espalhadas pelo nosso corpo. Aqui e acolá, nos deparamos com uma parte do nosso corpo que reage a toques, que apresenta uma sensação específica, ou que nos faz lembrar “de forma consciente” algum episódio de nossa vida, tenha sido ele agradável ou traumático.

Um episódio agradável. Recentemente, tive a oportunidade de comer uma fatia de mamão desses grandes e comuns em nossas roças e sítios. A sentir o sabor do mamão, veio-me à memória de que era esse o sabor que sentia na infância, mas não era uma memória genérica, de minha infância inteira. Junto com o sabor experimentado, veio um momento de convivência lúdica com meus irmãos, num determinado momento de minha infância.

Estávamos caminhando por uma das trilhas que sempre existem nas roças. De repente, abriu-se à nossa frente um conjunto de pés de mamão, altos e com mamões grandes, maduros, apetitosos. Eu deveria ter cinco anos de idade, mas meu irmão mais velho já tinha treze. Ele subiu num dos mamoeiros, no modo macaquinho, e fez cair frutas para nós quatro --- ele mais três irmãos, eu o caçula. Todos comemos nos servindo de nossas mãos para romper as frutas, enfiando o rosto dentro dos grandes pedaços de cada mamão. Nossa, que maravilha! O episódio, o espaço físico, os fatos, a circunstância, as pessoas presentes, todos os detalhes retornaram à minha mente, despertados pelo sabor do mamão em meu paladar. Lembrança viva. Memória guardada de uma experiência que já não “me lembrava mais”, há muito.

Uma memória negativa.  Medo do escuro. Tenho uma amiga que necessita todas as noites, como um ritual que se repete, olhar para debaixo da cama, tendo em vista ver se “alguma coisa” está lá, que pode ser uma pessoa, um diabo, um fantasma... Aprendeu isso com a mãe que insistia que, todas as noites, praticasse esse. Hoje, aos mais de cinquenta anos, ainda tem essa conduta todas as noites. É uma necessidade. Se não praticar esse ritual, não consegue dormir. Ou, ainda, uma outra circunstância traumática que retorna: mulheres que, em criança, foram abusadas sexualmente e, durante a devastadora circunstância, registraram o cheiro do esperma masculino, agora, adultas, quando, na atividade sexual, sentem o mesmo cheiro tem enjoos e, por vezes, vômito. Falei de mulheres, mas homens abusados sexualmente na infância também podem ter reações semelhantes, ou outras parecidas. Então, casos de memória traumática não nos falta. São muitas.

O que desperta a memória traumática? Pode ser a fatia de mamão que, no caso, levei à boa. Ao sentir o sabor do mamão, veio a memória da situação, aonde, em criança, tive a oportunidade de saborear um mamão, com sabor semelhante a essa fatia. Pode ser um mandato materno repetido de “educar a filha” para ter cuidados consigo mesma, antes de deitar-se na cama pela noite; pode ser um odor, uma cena, um conversa, um situação qualquer circunstância do dia a dia..., que nem mesmo entendemos a razão pela qual reagimos da forma como reagimos, usualmente de forma automática e intempestiva.

Memória corporal. “Corporal” significa o corpo inteiro, partes do corpo, mas também o registro em setores do nosso cérebro dos acontecimentos agradáveis ou desagradáveis, que vivenciamos no passado, por vezes, em experiências abruptas e, por vezes, por longo prazo, de forma repetitiva.

Quando aqui falo “cérebro” não estou dizendo “memória conceitual”, expresso em palavras; mas sim sensações e sentimentos fixados ao longo da vida, usualmente de forma inconsciente.  O cérebro é a central da memória do nosso corpo. Tudo o que ocorre em nossa vida é mapeado e registrado constantemente, tanto do ponto de vista biofisiológico (nosso corpo opera quase toda a sua dinâmica de homeostase, sem que decidamos, ou até mesmo sem que saibamos, como ele vai agir) como do ponto de vista das sensações e dos sentimentos, que se dão em nossas vidas e que, aparentemente, “passam”.

Então, a memória é corporal. Peter Levine, psicoterapeuta norte-americano, que atua com traumas, em um dos seus livros, cita uma frase de Fred, que eu, pessoalmente, não conhecia, que diz: A mente esquece, o corpo felizmente não. É também do mesmo Freud a frase que impactou Wilhelm Reich, praticamente abrindo as portas para o seu caminho de pesquisador e terapeuta, dando uma nova forma à psicossomática, subsidiando tantos desdobramentos psicoterapêuticos somáticos no decorrer do século XX. A afrimaçào de Freud é: O ‘eu’ é, antes de tudo, corporal.

No cotidiano, nós todos expressamos essa verdade de modo corriquiro sob a forma de metáforas: “tenho um nó no estômago, quando tenho que me apresentar em público”; “tremo como uma vara verde, quando me coloco diante de uma autoridade”; “me dá um branco na cabeça, quando vou apresentar um tema diante de várias pessoas”; “me dava um nó na garganta todas as vezes que tinha que pedir alguma coisa ao meu pai”; “ficava com as pernas travadas todas vezes que necessitava correr de algum cachorro”; “tinha um frio na barriga todas vezes que um cachorro, por menor que fosse, se aproximasse de mim”.  E... muitas outras metáforas corporais, que cada um de nós pode lembrar-se do acervo pessoal, que revelam o quanto nossas memórias, em primeiro lugar são corporais.

Que consequência tem esse fato para a psicoterapia ou para a terapia? A “cura” dos traumas (mais apropriadamente “das memórias traumáticas”), segundo Peter Levine, vem “de baixo para cima”; isto é, “do corpo, pela mente, para a consciência”.

A consciência é elaboração compreensiva do que ocorreu no corpo em termos do acontecimento, da sensação e do sentimento. Podemos até iniciar um procedimento terapêutico ou psicoterapêutico pela fala do cliente, mas a verdadeira cura da memória traumática passa pela experiência corporal, que foi onde ela aconteceu. Então, importa sentir no corpo a restauração do fluxo energético, pois foi nele que ocorreu o trauma e, consequentemente, a interrupção do fluxo energético no corpo, que, usualmente, pode ser expresso em nossas metáforas corporais ou de outras formas, como os mais variados impedimentos ou impasses que dificultam uma determinada ação em nosso dia a dia.

Por vezes, o impedimento aparece como defesa prévia diante da possibilidade --- ainda que distante --- de que alguma coisa possa acontecer de novo. As expressões seguintes revelam que, de imediato, entramos na reação, mesmo que nada esteja acontecendo em equivalência ao que ocorreu no passado em nossas vidas: “antes que isso aconteça novamente, saio na frente”; “antes de ser atacado, ataco”; “antes que isso ocorra novamente, saio correndo”; “quando sinto que alguma coisa vai ocorrer, me encolho”; “quando alguém vai tecer alguma consideração sobre mim, antes que ela termine sua fala, já inicio a me defender”; ... e muitos outros exemplos.

Hoje, os neurologistas descobriram, através de investigações por neuroimagem, que as “amígdalas cerebrais” (são duas, uma em cada hemisfério cerebral) são o lugar onde estão registradas as memórias do medo e que elas atuam independente de nossa escolha e decisão. Dada uma situação que tenha alguma possibilidade de ser igual ou equivalente àquela que nos traumatizou, as amigdalas não tem dúvida, atuam automática e intempestivamente e nos conduzem a atos externos também automáticos e intempestivos.

Freud, que não tinha à sua disposiçào estudos cerebrais por imagem (os primeiros estudos, com essa metodologia, ocorreram a partir de 1980 e ele faleceu em 1939), expressou sua compreensão clínica de nossas reações traumáticas da seguinte forma: “uma reação emocional desproporcional a uma circunstância do presente não é do presente, mas sim do passado”. A reação, que ocorre em decorrência de uma experiência traumática do passado, é maior --- ou muito maior --- do que o fato circunstancial que está ocorrendo no presente; é-lhe desproporcional. Quando ocorre essa semiologia, ela está nos dizendo: “Investigue, essa reação, ela não faz sentido com o que aconteceu agora, é exacerbada. Deve ter sua origem numa circunstância do passado, uma dor, um susto, uma ameaça...”. Portanto, deve ter sua origem num trauma do passado com um registro psicocorporal.

Hoje, mais do que nunca, trabalhar como terapeuta implica em estar atento ao corpo como sede das memórias traumáticas (assim como não-traumáticas) e sempre tê-lo presente nas atividades de cura psicológica. Mas, não só os profissionais. Todos nós, em nosso cotidiano, com um pouco de cuidado e disposição, podemos prestar atenção em condutas nossas que são desproporcionais à circunstância do presente e que, portanto, não tem a ver com o presente, mas com memórias situações traumáticas vividas no passado.

Para aprofundar esses estudos vale a pena ler:

  1. Peter Levine, O despertar do tigre, Summus Editorial, São Paulo, 1999 (já existem reimpressões deste livro)--- compõe-se de um estudo sobre o trauma, tendo por base estudos da etologia e do comportamento humano;
  2. Peter Levine, Uma Voz sem palavras, Summus Editoral, São Paulo, 2012 --- um livro da maturidade do seu autor seja como pesquisador, seja como terapeuta, trazendo novos entendimentos para aquilo que fora exposto no livro anterior;
  3. Daniel Goleman, Inteligência Emocional, Editora Objetiva, Rio de Janeiro (existem várias edições em português) --- livro fácil de ser lido, ilustrativo, mas ao mesmo tempo cuidadoso e profundo;
  4. Joseph LeDeux, O Cérebro emocional, Editora Objetiva, Rio de Janeiro (existem várias edições) --- livro de caráter científico, que expõe estudos científicos sobre o cérebro, mas ao mesmo tempo, de compreensão daquilo que ocorre em nossas vidas;
  5. Fritz Stemme, O poder das emoções, Editora Cultrix, São Paulo, 1999 --- estudo teórico-prático sobre o papel das emoções em nossas vidas cotidianas;
  6. Chris Griscom, O tempo é uma ilusão, Editora Siciliano, São Paulo (existem várias edições deste livro, ele foi traduzido no final da década de 1980). Esse é o único livro da autora que eu gosto. Trata o tempo como ilusão à semelhança de uma compreensão que Freud teve sobre o mesmo abordando o inconsciente, ao firmar que "o inconsciente é a-temporal". Nesta obra, a autora trata de memórias de vidas passadas; todavia também pode ser compreendido como tratando de "memórias passadas desta existência".   
  7. Mark Solms e Oliver Turnbull, El cérebro y el mundo interior: uma introducción a la neurociencia de la experiência subjetiva, Fondo de Cultura Economica, Mexico, 2005 --- um estudo das mediações entre neurociência e psicoterapia, especialmente vinculada à psicanálise;
  8. Antônio Damásio, O mistério da consciência, São Paulo, Companhia de Letras, 2000;
  9. Antônio Damásio, E o cérebro criou o homem, Companhia de Letras, São Paulo, 2011 --- ambos os livros desse autor centram-se em estudos da neurociência, buscando compreender a consciência, cuja base se encontra neurologicamente no corpo-cérebro, sensações, emoções, consciência.

São tanto os livros. Por onde começar? De meu ponto de vista, vale a pena seguir a sequência dos autores, indo de abordagens mais existências para as mais vinculadas às pesquisas científicas das neurociências, isso é dos mais próximos da compreensão dos nossos atos cotidianos para os fundamentos científicos.

Pode-se também ver filmes tais como Duas vidas (USA, Disney), O enigma das cartas (USA), Como estrelas na terra (Indiano), Filhos do paraíso (Iraniano), produções cinematográficas, onde roteirista e diretor foram sensíveis às situações traumáticas que ocorrem em nossas vidas, assim como mostram que sempre há uma solução possível. As terapias tem por objetivo reconhecer as memórias traumáticas em cada pessoa e dar suporte ao cliente para que encontre uma solução saudável para as mesmas.

Bons estudos!

 

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