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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMAS PSICOLÓGICOS E FORMAÇÃO DE CRENÇAS

Cipriano Luckesi

19/09/2012

De onde nascem nossas crenças? Certamente que nascem do ambiente sociocultural no qual nascemos, assim como naquele no qual nos formamos. As crenças de nossos ancestrais que nos foram transmitidas; as crenças de nossos pais; as crenças vigentes na comunidade onde nascemos e da qual participamos; como também as crenças da comunidade onde nos formamos, que pode ser diversa da comunidade onde nascemos. Essas são crenças éticas, morais, religiosas, políticas, econômicas, medicinais, de autoridade, de vizinhança... e muitas outras. Contudo, existem crenças que nasceram de traumas que vivenciamos, especialmente em idade pregressa de nossas vidas.

 Crenças que podem nos ter constituído ao longo dos anos que vivemos, podem ser decorrentes de um trauma de abuso sexual, de abuso do poder, de desqualificação, decorrentes de práticas religiosas, de submissão a medos e temores, entre muitas outras possibilidades. Afinal, traumas que estão gravados indelevelemente em nossa psique.

Primeiro vou falar da experiência de um cavalo domado. Monty Roberts é um domador de cavalos, que vive na Califórnia, USA. Hoje está perto dos oitenta anos, mas praticamente nasceu dentro de uma baia e passou sua vida lidando com cavalos, aprendendo sua linguagem corporal e com eles se comunicando através dessa linguagem de um modo sem violência, comunicativo, colaborativo.

No seu livro O homem que ouve cavalos, ele relata que teve um cavalo desde sua adolescência, animal que fora importante em sua vida, cujo nome era Brownie. Monty doma cavalos através de uma relação de comunicação acolhedora entre animal e domador. Todavia, Brownie fora domado, ainda sob a violência do chicote. Nessa metodologia tradicional e agressiva de domar o cavalo, a prática ocorria mais ou menos assim: O animal era preso num local fechado e restrito; era amarrado e, a seguir, fustigado nas costas e no ventre entre as pernas trazeiras com um saco de plástico amarrado na ponta de uma vara. Então, o animal --- que tem como característica o medo e, por isso, sempre foge --- com essa estimulação, entrava em crise, dando pinotes e coices os mais variados possíveis, tentando libertar-se d situação ameaçadora em que se encontrava, razão pela qual apanhava --- e muito --- com chicote para aprender a suportar o “ensacamento” (como se denominava essa prática) sem entrar em crise. Quando o cavalo suportava nova estimulação com o saco e não mais entrava em crise, dizia-se que estava “quebrado”, isto é, fora domado, submetido à vontade do seu domador.

Então, Monty conta que Brownie fora amansado dessa forma, mas com uma variante. Fora domado logo após o final da II Guerra Mundial e não se tinha sacos plásticos disponíveis para essa atividade do ensacamento. Então, usara-se, em seu processo de domação, um papelão amarado à ponta da vara tendo em vista fustigá-lo. O saco plástico fora substituído por um papelão. Pois, durante a sua vida inteira, que fora longa, ele não podia ver um pedaço de papel por perto que reagia intempestivamente. O animal fora traumatizado pelo “ensacamento” com o papelão e, adquiriu “a crença de qualquer pedaço de papel era extremamente ameaçador” e, frente a isso, reagia de modo automático à presença do menor pedaço desse material que chegasse junto dele.

O trauma psicológico (que sempre decorre de alguma agressão física) é uma ferida implantada e fixada na memória em função de algum acontecimento do passado que fora intempestivo, inesperado, abrupto, usualmente invasor e... sempre não compreendido. E, então, pelo resto da vida, há uma crença inconsciente de que aquilo que ocorreu vai ocorrer de novo. E essa crença leva a agir, também de forma automática e intempestiva, diante da presença de qualquer coisa ou situação que possa indicar que a cena anterior vai se repetir novamente. Como a cena anterior fora impactante, invasiva, dolorida, ameaçadora, reage-se para que ela não ocorra novamente. Como resposta à situação traumatizante forma-se uma crença, que usualmente atua de modo inconsciente, mas que também pode se expressar de forma consciente. Quantas pessoas na história não partiram para formar o “seu grupo”, a sua “fé”, o seu “ritual” em decorrência de dar uma resposta a sua situação traumatizante do passado. Certas condutas rígidas que são mantidas pela vida inteira como resposta à possibilidade de que a experiência anterior venha a ocorrer novamente?

Era o fim dos anos 1980. Passei uma noite num incêndio em um hotel numa determinada cidade do país. Estava hospedado no 14º andar do hotel e o incêndio deu-se no 8º  e 9º andares. Para sorte e felicidade de todos nós, o incêndio que se iniciara às 22: 00 hs de um dia se encerrara às 05:00 hs do outro, com o seu apagamento pelos bombeiros. Eu era adulto, já com mais de quarenta anos de idade, e, então, por anos sucessivos, nunca mais me hospedei em qualquer hotel acima do 2º andar, de onde, se necessário, poderia descer até por uma corda feita com os lençóis da cama do hotel. A experiência gerou a crença de que “por segurança, não devo hospedar-me nunca em um hotel em apartamento acima do 2º andar”. Por tempos, à noite, eu acordava com a presença de qualquer cheiro de fumaça no ar, fosse um cheiro próximo ou distante.

Imaginemos, agora, quando o trauma ocorre em tenra idade, muitas vezes, no período pré verbal, isto é anterior aos dois anos de idade. As histórias são muitas de crenças que tiveram sua origem em traumas que ocorreram nas vidas em nossas vidas. Acreditei, temerosamente no inferno por anos de minha vida, devido minha mãe castigar-me por algumas molecagens e dizer-me ameaçadoramente que iria par ao inferno. Como fora difícil abrir mão desse medo e dessa crença arraigada, decorrente de traumas infantis? Um menino que fez um belo gol jogando num time de futebol infantil, e vai até o pai e pergunta-lhe se viu o gol que fizera. O pai responde: “Qual é... E, você é capaz de fazer algum gol?!!!....” E, então a criança se torna adolescente, adulto crendo que necessita de fazer um gol “para o pai ver”. Evidentemente que com essa crença se torna um homem bem sucedido, pois a vida inteira passou marcando gols para o pai ver. Contudo, a que preço? A mulher que acredita não ter o direito de ter um homem que a ame “porque fora estragada por um abuso sexual na infância”. Outro que acredita não ter direito ao sucesso financeiro porque roubara duas mangas na infância e fora castigado exacerbadamente por isso. Outra que acredita ser feia (mesmo sendo bonita) porque a mãe, de modo predominante, dava atenção quase que exclusiva para a irmã mais velha. E, assim, por diante... E, os traumas decorrentes de lutas destrutivas entre povos, entre comunidades, assim como entre famílias, que geram crenças de que nós somos do bem e o outro ou os outros são do mal?...

Quantas e quais de nossas crenças nasceram de situações traumáticas nossas ou da comunidade humana à qual temos um pertencimento? Que crenças levamos pela vida à fora em decorrência de traumas que vivenciamos em nossa vida, seja na vida intrauterina, no nascimento, na infância, na adolescência, na vida adulta, assim como na maturidade...

Desse modo, sem sombras de dúvidas, constatamos que muitas crenças --- vividas por nós --- têm suas fontes socioculturais, mas também, sem sombras de dúvidas, constatamos que outras tantas crenças podem ter suas origens numa ou em várias situações traumáticas.

 

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