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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós 

TRAUMA PSICOLÓGICO E BUSCA DE SUA SOLUÇÃO

Cipriano Luckesi

30/09/2012

Em textos anteriores, publicados por mim neste site --- Curando a Criança Ferida ---, abordei, sob diversas facetas, a fenomenologia do trauma. No presente, desejo sinalizar a questão da “busca de sua solução”. Healing seria uma expressão mais adequada. “Curando” à medida que o trauma não se cura ex-abrupto, todavia num processo que se inicia pelos sinais de alguma coisa que está impedindo a vida de ser melhor (sintomas observáveis); desvelar a cena temida (o trauma); compreendê-la e integrá-la. Isso se dá num processo, que é um “curando”.

Em um texto anterior, sugeri que o leitor assistisse a dois filmes. Um deles com o título de Enigma das cartas, na tradução para o português, cujo título original é House of cards, com roteiro e direção da Michael Lessac, USA, 1993.

Inicio este texto com uma resenha relativa a este último filme, que expressa a “busca de solução para um trauma”. Enigma das cartas mostra uma experiência traumática ocorrida na infância de uma menina, cujo processo curativo também ocorre ainda nessa faixa etária.

Resenha do filme Enigma das cartas. Após morar vários anos no México, Ruth Matthews e seus dois filhos --- Michael e Sally --- retornam à Carolina do Norte, Estados Unidos. O retorno deve-se à morte do marido de Ruth --- Alex --- num trágico acidente, quando, à noite, fazia escavações arqueológicas em uma das ruínas maias. 

Antes do retorno, ainda no México, Sally pergunta a Selord, amigo da família, onde seu pai se encontra. O mexicano, de uma forma simples e comum, lhe responde que o pai dela, “agora, mora na lua”. 

Já nos USA, Sally apresenta comportamentos estranhos, observados silenciosamente pelo irmão. Horas depois de levar a filha para o primeiro dia de escola, a mãe é informada de que a filha subira numa árvore muito alta, no que fora imitada por um coleguinha, que terminou fraturando o braço. 

Tomando conhecimento de que a escola havia contatado um psiquiatra --- Dr. Jake Beerlander --- para ver e cuidar da filha, a mãe, não creditando que sua filha necessitasse desse tipo de profissional, tenta impedir que ele visse a filha. Porém, ele chega à casa da família num momento onde ocorre novamente uma conduta “estranha” da criança, subindo ao telhado da casa. O psiquiatra pula os muros da casa e ajuda a contornar a situação. A seguir, tenta, de variadas formas, tratar a criança através de métodos tradicionais, com os quais a mãe não concorda. 

Fato seguinte, a criança sobe num guindaste de 43 metros de altura e o Serviço Social público obriga a mãe a submetê-la aos cuidados do psiquiatra. Porém, com sua sensibilidade de mãe, continua a crer em sua intuição e observa que a criança constrói um castelo de cartas, que ela fotografa, para tentar convencer, sem sucesso, o psiquiatra de que sua filha não sofre de autismo, em conformidade com seu diagnóstico sobre ela. 

Por si mesma e por sua intuição, a mãe constrói, com placas de madeira, uma torre semelhante à que a filha construíra com as cartas, na tentativa de compreender o que se passava dentro dela. 

Certa noite, exausta da tarefa hercúlea que se impusera de construir a torre, deita-se sob o seu centro e vê a lua cheia pelo vão redondo no topo da torre e, então, adormece. A filha vem para o local silenciosamente, e, ainda noite, sobe a torre até o seu final mais alto e, então, vê a lua e despede-se do pai, que, “agora, mora na lua” e desce torre abaixo. O psiquiatra a encontra, um tanto a ermo, curada e a traz para a mãe.

O trauma se cura --- “num curando” ---, através do contato com o seu conteúdo, com a compreensão do que ocorreu e, consequentemente, com sua integração na psique, que possibilita viver e experimentar novas possibilidades na existência cotidiana. O descongelamento do trauma, certamente, não se dá instantaneamente, como representa o filme (essa foi a possibilidade da película), mas sim, nesse momento e nos tempos subsequentes, a partir do contato e da compreensão do que ocorreu. Novas sinapses cerebrais são estabelecidas nesse instante  e nos subsequentes e, então, haverá um tempo necessário de acomodação à nova situação. É o tempo de maturação da nova experiência.

A marca do trauma se fixa no nosso corpo, no nosso sistema nervoso e em nosso inconsciente, no momento imediatamente anterior ao acontecimento que afeta emocionalmente a criança, o adolescente ou o adulto, como devastador. Para quem sofreu o trauma, seja ele qual for, permanece incompreensível e, por isso, sempre ameaçador até que venha a ser acessado e reprocessado.

Peter Levine, em seus dois livros teórico-práticos sobre trauma --- O despertar do tigre e Uma voz sem palavras --- nos lembra que os etólogos (cientistas que estudam comportamento animal) descobriram que, no mundo animal, onde, pela necessidade de sobrevivência, ocorre o processo de predação de um animal menor como alimento para um maior, quando o animal menor está prestes a ser predado pelo maior, ele se congela e cai no chão.

Caso o animal predador efetivamente ataque o menor para sua alimentação, este já está congelado e, então, não sofre as dores da morte. Porém, se o predador, por alguma razão, resolver não alimentar-se desse animal menor, retira-se e indo embora. Então, o predado inicia um processo de tremores no corpo, que o faz sair do congelamento; e, após abanar o corpo, vai embora, correndo livremente, sem a carga do trauma congelante.

De modo semelhante, diz o autor, nós, seres humanos, nos congelamos no momento anterior ao trauma, com a diferença de que permanecemos fixados no congelamento, esperando pela vida afora que o evento traumático “ainda venha a ocorrer” ou que “venha a ocorrer de novo”, pois que nosso organismo usualmente não reage de forma semelhante aos outros seres do gênero animal.

Esse modo de ser, no caso do ser humano, faz com que o traumatizado, de um lado, (01) crie condutas e hábitos padronizados e rígidos de conduta, observáveis no dia a dia, que usualmente são praticados de forma automática (sem consciência específica de que age dessa forma); como também (02) faz com que condutas intempestivas, automáticas e desproporcionais ao que está ocorrendo no presente, sejam despertadas e expressas, diante do mais leve sinal (seja ele real ou fantasmagórico) de que o evento traumático poderá vir a ocorrer novamente. É uma reação de sobrevivência à ameaça.

Esses hábitos rígidos que dificultam viver melhor, assim como as reações intempestivas e desproporcionais à circunstância presente são sintomas de traumas, entre outros possíveis como conteúdos que aparecem nos sonhos, ou nas metáforas que usamos no dia a dia.

O caminho da cura, em conformidade com a abordagem do filme, acima resenhado, assim como com os mais variados teóricos e pesquisadores dessa fenomenologia --- Freud, Jung, Reich, David Boadella, Peter Levine, David Grove ---, está em retomar a cena traumática (cuidando para que não ocorra uma re-traumatização), passando por dentro dela e a compreendendo, de tal forma que o evento traumático primordial possa ser integrado na vida, como um “fato do passado”.

Pode-se perguntar: “Mas, somente isso? Colocar um fato no passado, basta?” Um fato que assume o verdadeiro lugar de alguma coisa que ocorreu no passado e permanece no passado, não atua mais. Lá do lugar onde permaneceu inconsciente e ativo, se desativado (reprocessado), deixa de atuar.

Um trauma curado, na linguagem de Francine Shapiro, significa que ele foi dessensibilizado (= retirada a dor da ferida) e reprocessado (= material utilizado adequadamente em outro produto), isto é, integrado na psique como uma experiência vivida na história pessoal, que, de alguma forma orientou um caminho pela vida, mas... que já foi; não se precisa mais dele, como se pode ter precisado tendo em vista sobreviver. Uma ferida curada já não dói mais; só uma lembrança de alguma coisa que aconteceu e que até pode ter sido útil, como meio de sobrevivência, dando-nos algum rumo na vida.

A vivência “Curando a criança ferida dentro de nós”, para cuidar das experiências traumáticas, opera com um conjunto de recursos disponíveis, como meios de acessar e atravessar experiências traumáticas, tendo em vista acessá-las dessensibilizá-las e reprocessá-las, para que se integrem à vida. A vivência constitue-se em um espaço continente para que cada um possa, se o desejar, desvelar a cena inconscientemente temida, que tem incomodado a vida; defrontar-se com ela; compreendê-la e dar-lhe um novo lugar na existência pessoal. Essa experiência pode ser o passo inicial, intermediário ou final de um “curando...”, a depender da trajetória de cada um. O que importa é que seja um passo, efetivamente dado.


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