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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMAS PSICOLÓGICOS E REAÇÕES NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

Cipriano Luckesi

20/10/2012

Neste texto, vamos tratar do significado das experiências traumáticas nas relações interpessoais. Para tanto, tendo em vista torná-lo compreensível e consistente, necessitarei de retomar alguns pontos já tratados em textos anteriores cados neste site.

 Freud (1856-1939), em finais do século 19 e inícios do 20, formulou, do ponto de vista psicológico,  uma compreensão lapidar a respeito de nossas reações intempestivas no cotidiano de nossas vidas, como consequência de traumas em nosso passado biográfico, especialmente o infantil.

A intuição de Freud, aproximadamente, se expressa da seguinte forma: uma reação desproporcional à uma circunstância presente não é do presente, mas do passado. Reações desproporcionais ocorrem quando elas se dão de forma automática e intempestiva no nosso dia a dia como no cotidiano de outras pessoas.

Ele denominou a fenomenologia das reações emocionais intempestivas de transferência e, quando essa fenomenologia ocorre nas relações interpessoais, ganha a denominação de contratransferência. As transferências podem ocorrem em qualquer circunstância, mas a contratransferência ocorre entre seres humanos (eventualmente, podendo ocorrer também na relação entre seres humanos e animais domesticados; eles reagem --- contratransferem --- psicologicamente, de modo especial, com base nos maus tratos sofridos nos passado). Objetos e situações não reagem, contratransferindo. Simplesmente estão aí.

A transferência é compreendida como a projeção, no presente, de uma resposta dada no passado a uma situação traumática. Alguma coisa está ocorrendo, agora, no seio dos acontecimentos de uma relação, contudo, responde-se a ela, automática e intempestivamente, com uma resposta do passado, estabelecida no momento ou nas circunstâncias em que ocorrera a experiência psicológica originária, fortemente negativa, traumática e, por vezes, devastadora. Age-se automaticamente. É como se tocasse numa ferida e, para proteger-se da dor, reage-se automaticamente.

Por outro lado, quando uma ação intempestiva de outra pessoa vem à tona em resposta a uma intervenção nossa, no mesmo “tom” --- ou, por vezes, num tom mais exacerbado ainda que aquele com o qual agimos ---, diz-se que ocorreu uma contratransferência.

Contratransferência expressa a reação do outro à nossa intervenção com estado de ânimo do mesmo calibre que o nosso ou mais exacerbado ainda, contratransferindo, isto é, servindo-se de uma resposta com equivalente teor emocional ou até mais acentuado. Nosso estado de ânimo provoca o estado de ânimo do outro ou o estado de ânimo do outro provoca o nosso.

Nos processos transferenciais e contratransferências, de decerta forma, quase que dizemos: “não toque na minha ferida; ela dói e eu reajo”. Então, se, de algum modo, nós e o outro, de alguma forma, tocamos --- querendo ou não --- na ferida do outro, nos digladiamos.

Isso nos faz compreender que, muitas de nossas ações de nós, hoje, adultos, nas relações interpessoais, são reflexos de nossas experiências biográficas passadas; experiências poderosas, que podem ter ocorrido em nossas vidas nas mais diversas faixas de idade: desde a vida intrauterina, passando pela infância, pré-adolescência, adolescência, juventude, vida adulta, pelo período denominado de maturidade, pela faixa etária do idoso e pela velhice. Para sermos traumatizados não existe faixa etária definida, ainda que os traumas ocorridos na infância sejam mais devastadores, frente ao fato de que as crianças tem menor poder de defesa e de compreensão do evento ocorrido. Mais profundo ainda se os traumas ocorreram na fase pré-verbal da vida de cada um de nós.

Traumatizados, conseguimos encontrar uma solução para seguir vivos e sobreviver. Essa solução, pela qual conseguimos sobreviver, foi ótima, porque nos permitiu sobreviver; mas também foi péssima, porque nos fixou numa forma fixa de responder ao mundo, às circunstâncias e à vida, acreditando inconscientemente que ela --- do jeito que foi praticada --- sempre nos garantirá a sobrevivência, custe o que custar. Essa resposta assemelha-se a um gatilho sempre armado que dispara ao menor sinal de que o que ocorreu no passado ocorrerá novamente. Antes que aconteça novamente..., reagimos.

Essas ações e reações emocionais intempestivas nas relações interpessoais (transferência e contratransferência) também compõem o que, em outro texto deste site, sinalizamos como sintomas do trauma (Semiologia do trauma).

Então, uma vez traumatizados, ao longo da vida, agimos e/ou reagimos repetidamente da mesma forma, tornando crônico nosso modo de responder aos acontecimentos. Dada determinada circunstância --- ou uma circunstância parecida com aquela que se deu em nossas vidas ---, intempestivamente, reagimos da mesma forma ou de forma próxima, sempre desejando sobreviver, por oposição ao temor da possibilidade de sermos destruídos. Esses modos de agir e de reagir, usualmente, são e serão inadequados às circunstâncias do presente. Eles exigem cuidados.

Quando sentimos que nossas reações emocionais (sinais do trauma) atrapalham nossas vidas --- seja porque percebemos, seja porque outros nos sinalizam isso reiteradamente ---, necessitamos cuidar delas, buscando suas fontes e modos de administrá-las pelos mais variados recursos disponíveis em nossas vidas.

Por vezes, a dessensibilização e o reprocessamento do trauma exigirão investimentos em cuidados psicoterapêuticos com profissionais competentes e, suficientemente, bem preparados e..., sem sobra de dúvidas, cuidadosos com seus clientes.

 Por outras vezes, certamente que experiências existenciais podem também minorar os efeitos negativos dos nossos traumas, possibilitando caminhos mais saudáveis nossa vida, tais como:

+ partilhar nossas dores e marcas infantis com nossos pais e nossas mães, se forem acolhedores e capazes de nos ouvir, sem nos julgar (por vezes, nossos pais se sentem julgados e incomodados com nossos relatos; nesse caso, não vale a pena nem tentar nem prosseguir);

+ partilhar nossas experiências traumáticas com amigos, caso possam nos ouvir, sem nos desqualificar ou sem que atuem interpondo-se ao nosso relato (pois que, por vezes, quando iniciamos a relatar para um amigo uma dor, que vivemos, ele se sente estimulado, imediatamente, a relatar uma experiência pessoal, como maior que a nossa e não nos ouve);

+ partilhar com nossos parentes adultos, que gostam de nós e nos respeitam em nossas dores; partilhar com pessoas que ocupam papel de destaque em determinados segmentos religiosos, caso não sejam moralistas, julgadores e condenadores;

+ viver a vida no seu percurso, por si, por vezes, conduz-nos a ultrapassar e a integrar cenas traumáticas e prosseguir na vida.

Exemplos não faltam em relação a isso. Menino, eu era bastante tímido, Meu primeiro “discurso em público” ocorreu quanto eu tinha 13 anos de idade. Um horror... Depois disso, um professor que fazia teatro na escola, onde eu estudava, deu-me um papel e insistiu no meu treinamento para o papel, insistiu, insistiu e insistiu... cuidadosa e pacientemente... até que fiz o papel. Era o papel de um guarda junto à Tenda de José do Egito, preso pelos egípcios; havia uma fala do guarda, sozinho, conversando consigo mesmo enquanto, à noite, guardava seu prisioneiro. Meu texto tinha talvez dez linhas, porém, era difícil fazê-lo bem; deserjava sumir da frente dos outros ao tentar fazer o meu papel. Hoje, falo em público, tranquilamente. Bendito professor! Suprimiu meus medos e deu-me força para agir.

Um filho meu traumatizou-se com o avanço de um cachorro desconhecido sobre ele. Uma prima adquiriu um cachorro. Convivendo com ela e seu cachorro, vagarosamente, pode descobrir que “nem todo cachorro era agressivo e avançava sobre as pessoas”. Então, curou-se do temor excessivo de todo e qualquer cachorro. Jocosamente, o tio, de vez em quando, dizia: “Vou cobrar os custos das sessões terapêuticas....” A vida, no seu processo, curou o temor excessivo, isto é dessensibilizou a dor e reprocessou a experiência.

Essas experiências curativas no próprio percurso da vida dão-nos  suporte para ultrapassar dores e marcas do passado. Uma presença efetivamente amorosa junto de uma pessoa sempre faz muito bem. Quando as experiências do dia a dia não nos conduzem a uma boa solução, então, vamos necessitar de uma ajuda profissional, em conformidade com o que sinalizamos acima.

Desse modo, vale pensar que, na vida, importa buscar a melhor forma de viver e, para tanto, servir-se dos mais variados meios disponíveis, pois que viver consigo mesmo e com o outro é o que importa.

Não será nem um só meio nem dois que nos ajudarão a prosseguir na existência; será a dinâmica da vida que nos dirá o que necessitamos e como necessitamos nos cuidar. Por vezes, a vida, por si, nos premia com suas benesses e, por outras, necessitamos de, intencionalmente, buscar soluções específicas.

Tomar consciência de nossas reações repetitivas, automáticas e intempestivas será um ponto de partida para sabermos que “alguma coisa” não está bem e que merece atenção e cuidados --- sejam eles quais forem --- para que possamos viver melhor e de forma mais saudável. Essa é condição necessária para que abramos mão --- se não de todo, ao menos nas situações mais graves --- das transferências e contratransferências, que praticamos todos os dias nas relações interpessoais, como nas relações com tudo o que nos cerca.

É certo que as dores e cicatrizes do passado exercem seu papel em nossas vidas. Contudo, se estivermos atentos às nossas reações repetitivas, automáticas e intempestivas, e, se investirmos na sua dessensibilização e no seu reprocessamento, produziremos sua integração para que possamos viver o livre fluxo da vida.

 

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