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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

RELAÇÕES INTERPESSOAIS QUE FLUEM

Cipriano Luckesi

04/11/2012

No texto anterior, publicado por mim neste site --- “Traumas e reações nas relações interpessoais” ---, tratei de como nossas memórias traumáticas, quando não cuidadas, podem interferir e, usualmente, interferem em nossas relações interpessoais de uma forma negativa. Neste texto, vamos abordar as relações interpessoais que fluem satisfatoriamente.

 Rubem Alves escreveu uma crônica que se intitula “Tênis x Frescobol”, retratando, de um lado, como os jogadores de tênis se atacam, na tentativa de um vencer o outro; situação que exemplifica as relação interpessoais marcadas por condutas automáticas e intempestivas, e, de outro, retratando jogadores de frescobol, onde cada jogador oferece ao outro a “melhor bola”, o que também o leva a receber, em resposta, a melhor bola; situação que, por sua vez, exemplifica relações interpessoais que fluem. Nas palavras do autor:

“O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada (...) que indica o seu objetivo (...), que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro”.

“O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido (...). E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro não se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...”

Metaforicamente, podemos dizer que as relações que fluem dão-se como num jogo de frescobol. Uma dança onde todos se sentem bem, só ganham, nunca perdem. Basta a alegria.

Na área psicoterapêutica, David Boadella, criador da Biossíntese, diz que são cinco os estilos de relação entre terapeuta e cliente, sendo que somente um é saudável, o terceiro, onde “terapeuta e cliente praticam uma dança energética”; na expressão de Rubem Alves, um jogo de frescobol 

  • Estilo 1: terapeuta ativo e cliente receptivo
  • Estilo 2: terapeuta ativo e cliente também ativo
  • Estilo 3: terapeuta e cliente praticam uma dança energética
  • Estilo 4: cliente ativo e terapeuta também ativo
  • Estilo 5: cliente ativo e terapeuta receptivo.

 Nos dois primeiros estilos de relação, ocorre ou uma imposição do poder, quando o terapeuta predomina (estilo 1) ou ocorre uma disputa pelo poder entre terapeuta e cliente (estilo 2); a relação, então, permanece adoecida.

Já os dois últimos estilos têm a ver com o fato de que ou o cliente tem o predomínio, permanecendo o terapeuta dependente (estilo 5), ou ambos disputam o lugar do poder (estilo 4); situação que também conduz ao adoecimento da relação.

Nesses estilos (1, 2, 5, 4), praticamente se dá o que Rubem Alves denomina jogo de tênis, que também pode ser exemplificado, nos brinquedos infantis e juvenis, pela brincadeira denominada de “cabo de guerra”, onde dois grupos seguram uma corda, cada um em uma das pontas da corda. Uma marca no meio da corda e no uma marca no chão são sinais para indicar quem ganha e quem perde. Vence o grupo que puxa a corda inteira para o seu lado.

Somente o terceiro estilo de relação (o 3) --- aquele no qual se dá numa “dança energética” entre terapeuta e cliente --- apresenta-se saudável. Afinal, o “frescobol” na relação terapêutica. Uma festa! Ambos desejam chegar a melhor meta e, por isso, confiantes, trocam experiências, estando o terapeuta no lugar daquele que “já fez o caminho” e, por isso, tem condições de dar continência para que o cliente faça o seu. Um parceiro de jornada, certamente mais experiente.

No terceiro estilo, o terapeuta --- como adulto da relação, treinado para a escuta e para o acolhimento, é capaz de administrar seus preconceitos, adquiridos em sua história de vida, seja através de eventos biográficos pessoais, seja através de heranças familiares, comunitárias e socioculturais. Essa capacidade possibilitar-lhe-á acolher e ouvir seu cliente, sem reagir automaticamente e impor-lhe uma solução.

Por outro lado, o cliente, acolhido, respeitado e honrado em sua história de vida, seus impasses, suas dores, dúvidas e impedimentos, sente que encontrou o espaço seguro (continência do terapeuta) para expor seus dramas, sem ser julgado ou desqualificado, fato que lhe permite, na confiança, jogar o “jogo da cura de si mesmo”.

Com tempo e o investimento de ambos --- terapeuta e cliente ---, as sessões terapêuticas tornar-se-ão sessões de “frescobol” ou, na linguagem de Boadella, uma “dança energética” curativa e, pois, criativa, que trará bem-estar para ambos os sujeitos da relação. 

 Freud foi o primeiro investigador da psique humana e de seus processos, que se deu conta de que nem sempre as relações entre seres humanos fluem como deveriam fluir em função de reações emocionais, que tem sua fonte em memórias traumáticas do passado.

Descobriu isso em suas atividades na clínica psicanalítica ao dar-se conta de que, nas relações, poderiam ocorrer transferências indevidas de reações do passado a uma circunstância do presente. Transferência e contratransferência foram as denominações utilizadas por ele para indicar que, na relação, uma pessoa, ao atuar de forma automática e intempestiva (transferência), estimula a outra a reagir na mesma proporção ou de forma mais exacerbada ainda (contratransferência), fato que efetivamente dificulta uma relação saudável.

Observou isso especialmente no setting psicanalítico (consultório) e propôs a “atenção flutuante”, como recurso necessário para que o analista, em sua escuta ao cliente, não se apegue e se fixe imediatamente às primeiras e primárias informações partilhadas, pois que, permanecer aberto à escuta do que o cliente é condição para que, fluindo, encontre um ponto essencial em sua partilha, que signifique um conteúdo significativo que sirva de ancoramento e base para uma intervenção curativa.

Servir-se da atenção flutuante não é uma conduta simples e fácil, à medida que todos nós, usualmente, temos por hábito, assentados sobre nossas experiências biográficas, sentirmo-nos mais tocados emocionalmente por aquilo que nos toca do que o que toca o outro, que está expondo sua experiência. Então, facilmente nos apegamos ao que nos toca e perdemos o bonde do que o outro está partilhando.

No lugar que ocupa, todo terapeuta deveria ser capaz de administrar suas emoções pessoais e intempestivas, tendo em vista de forma efetiva escutar o cliente, isto é acolher o cliente, para com ele poder caminhar juntos.

Qualquer um de nós, por razões de nossa biografia pessoal, tocados emocionalmente pelos conteúdos relatados pelo nosso interlocutor, caso não consigamos administrar esse estado emocional, dificilmente escutaremos ou outro de forma devida, transferindo-lhe (projetando) reações que emergem de nossas memórias inconscientes pessoais e ainda não cuidadas. Por vezes, mais que isso, não só não o escutamos como atuamos (agimos) de forma inadequada.

Então, o outro, ao não se sentir escutado, reage ao nosso modo de ser, desejando ser ouvido; e, então, nessa dinâmica, desaparece a possibilidade de uma relação saudável. Nessa circunstância, não há acolhimento para os conteúdos que o outro traz e, então, não se sentindo honrado em sua partilha e suas dificuldades, fecha-se e afasta-se; o que não é nada saudável para uma relação.

A Solução para uma boa e satisfatória relação é a “dança energética” entre duas ou mais pessoas, sejam elas pares, profissionais, terapeuta e cliente, professores e estudantes, pais e filhos... Se a “dança energética” ainda não existe, para que uma relação seja saudável, importa investigar, cuidar e ultrapassar os entraves existentes. Então, poderemos, alegre e saudavelmente, jogar o frescobol!

 


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