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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

NOSSOS TRAUMAS PSCIOLÓGICOS, NOSSAS JANELAS QUEBRADAS

Cipriano Luckesi

20/11/2012

Nesse texto, tenho como objetivo utilizar a “teoria das janelas quebradas” para um olhar sobre nossa vida pessoal, expressa em nossas vivências psicológicas pessoais e de relações. Inicio pelo entendimento da “teoria das janelas quebradas” e, a seguir, estabelecerei “pontes” entre as compreensões formuladas nessa teoria e nossa vida pessoal, como também de relações.

 Em 1969, através da Universidade de Stanford, Estados Unidos, Philip Zimbardo realizou um interessante experimento na área da Psicologia Social. A pergunta era: o que aconteceria com dois carros idênticos deixados em dois locais diferentes, sendo um deles caracterizado por situações socioeconômicas desfavoráveis e o outro em um espaço social e econômico bem aquinhoado?

Dois automóveis idênticos --- com a mesma marca, mesmo modelo, mesmo ano de fabricação e mesma cor --- foram abandonados em duas cidades. Um foi deixado no Bronx, bairro de New York, à época do experimento, uma zona pobre e conflituosa; o outro foi deixado numa das ruas da cidade de Palo Alto, na Califórnia; cidade rica e tranquila.

O carro abandonado no Bronx foi vandalizado em poucos dias, sendo subtraídos: rodas, motor, espelhos, radio e tudo o mais que fora possível retirar do veículo. Todavia o carro abandonado em uma das ruas de Palo Alto manteve-se intacto por alguns dias, na primeira parte do experimento.

Então, o pesquisador introduziu uma nova variável nesse processo investigativo: quebrou um dos vidros do automóvel exposto na cidade de Palo Alto. O resultado foi equivalente aos acontecimentos ocorridos no Bronx. O vandalismo fez desaparecer o veículo em pouco tempo.

Que razão haveria para que que um vidro quebrado pudesse disparar tal processo destrutivo em um carro abandonado em uma cidade rica?

Segundo o pesquisador e sua investigação, a resposta a essa pergunta é de que não se trata de pobreza, mas sim que tal conduta tem a ver com o comportamento humano e com as suas relações sociais.

O vidro quebrado no carro abandonado, no caso, transmitiu a ideia de deterioração, desinteresse e descuidado, fato que estimulou o rompimento dos modos de convivência social, que implicam regras, normas, inclusive leis. Objetos descuidados despertam qualidades negativas no ser humano.

Através de experimentos posteriores, a partir dessa base, em 1982, dois criminologistas norte-americanos --- James Wilson e George Kelling ---, formularam o que denominaram de “Teoria das Janelas Quebradas” (Broken Windows Theory), publicada através de um artigo na revista The Atlantic Monthly, explicitando que o delito é maior em espaços onde o descuidado, a sujeira, a desordem e o maltrato estão presentes.

Essa teoria já foi utilizada de forma bem sucedida em variadas experiências, como nos cuidados com a criminalidade em Nova Iorque, que chegou a ser reduzida em 80%. Diz-se que o metrô da cidade de São Paulo é um dos mais limpos e bem cuidados do mundo, ainda que antigos. Todas as noites, a partir do fechamento de sua circulação, uma grande equipe de profissionais trabalha na limpeza e manutenção dos seus vagões e suas linhas. Por menor que seja o defeito, por exemplo, no vidro de uma janela, ele é substituído, assim como qualquer outra parte dos equipamentos. Desse modo, os usuários não encontram base, consciente ou inconsciente, para o descuidado pessoal, assim como para o seu uso depredativo.

Cuidar das “janelas quebradas” é meio para dizer que os bens e a vida têm uma ordem e que todos devem respeitá-la. A ordem ensina e orienta a vida e a ação. Nos anos 1960, Herbert Marshall McLuhan usou a expressão que bem cabe aqui: “O meio é a mensagem”. Um meio cuidado conduz a cuidados subsequentes. Um meio descuidado conduz a descuidados subsequentes, podendo chegar à depredação. Numa “terra de ninguém”, afinal, “tudo pode ser feito”...

A exemplo, podemos lembrar que, em nossa casa, se não tivermos cuidados com os bens materiais e com as condutas, pouco a pouco, cairemos no descuido tanto em relação ao espaço físico como nas relações interpessoais familiares. Fato que pode ser ampliado para as relações profissionais, comunitárias e com a sociedade em geral, podendo até mesmo ocorrer que, algum dia, alguém chegue à prática de delitos mais graves. Meios ordenados, limpos, cuidados e belos ensinam a viver da forma equivalente; o contrário também é verdadeiro. Afinal, “o meio é a mensagem”.

A “teoria das janelas quebradas” nasceu de experimentos no âmbito da Psicologia Social, mas facilmente pode ser aplicada em nossas vidas pessoais e de relações com os outros e com o ambiente que nos envolve.

Metaforicamente, podemos dizer que pequenos “vidros quebrados em nossa psique” --- caso não sejam restaurados --- possibilitarão rombos maiores com o passar do tempo.

Nos artigos deste site, viemos mostrando como os traumas geram rupturas "nas janelas de nossa psique”, que, por vezes, por anos a fio, estiveram e/ou estão “abertas”, roubando nossa energia, que poderia ser utilizada para vivermos melhor e de forma mais saudável. Janelas quebradas de nossa alma --- expressões de nossos traumas, como de crenças errôneas adquiridas na dinâmica da vida --- podem se ampliar como também se aprofundar ao longo do tempo. Atos inconscientes repetitivos e, em geral, nocivos ao nosso próprio cotidiano, podem se tornar mais repetitivos e mais devastadores ainda com o passar do tempo e com sua prática constante.

É fácil lembrar que certos hábitos --- tais como fumar, fazer uso de bebidas alcoólicas reiteradamente, alimentar-se em excesso ou de alimentos indevidos, “abusar da paciência alheia” como se fosse uma brincadeira, desqualificar-se ou desqualificar os outros continuamente de forma habitual, entre muitas outras possibilidades --- são nocivos a nós mesmos ou às relações e, com a sua repetição, tornam-se quase que “naturais” em nossas condutas cotidianas. De tão “naturais que se tornam”, quase que nem mais percebemos a forma como habitualmente agimos. Mas os outros...  sabem como agimos, à medida que sofrem os “respingos” do nosso modo de ser e agir. Afinal, fazendo pontes, podemos dizer que, segundo a teoria acima exposta, as “janelas quebradas” conduzem ao descuido, à deterioração,ao aprofundamento de hábitos que incomodam, seja a nós mesmos, seja em nossas relações.

Cuidar de nossos traumas, de nossas reações automáticas e intempestivas, assim como do nosso modo de agir e reagir de forma inadequada e repetitiva, é o meio para restaurar as “janelas quebradas de nossa psique".

Certamente que encontraremos no nosso entorno muitas razões para justificar que nossas condutas ativas e reativas sejam como são, tais como maus cuidados em nossa vida pregressa, porém importa investigar e restaurar o nosso modo de agir e reagir. Certamente nossos padrões incomodantes de conduta terão suas razões de ser e suas fontes. Certamente que não bastará utilizá-las como justificativas para nossos modos de ser. Importa investigá-las e integrá-las em nossa vida cortidiana, se queremos restaurá-las.

Sobre os outros (nossos pais, professores, parentes, vizinhos, autoridades...) e sobre o que fizeram no passado, temos pouco poder --- ou nenhum. Contudo, sobre nós e nossas condutas, temos autonomia para investigar e escolher como agir, o que implica em redirecionar nossas condutas, tendo em vista que nossa vida flua de maneira saudável e, por isso mesmo, feliz.

Lamentar nossa vida não ajudará em nada, seja em que aspecto for. O que nos ajudará será investigar onde existe uma “janela quebrada” e cuidar para que seja restaurada. Isso está em nossas mãos. Sentir aquilo que nos desagrada em nós mesmos, de modo repetido --- ou aquilo que os outros nos sinalizam que os incomoda decorrentes de nossas condutas ---, por si, não restaurará a “janela quebrada”. Importa desejar fazer diferente e investir em sua restauração, transformar os hábidos.

Só a investigação daquilo que nos impede de viver melhor, compreender esse impasse e integrá-lo em nossa vida de um modo saudável, restaurará nossa janela que, de alguma forma, foi “quebrada” e, pois, restaurará nosso modo de estar no mundo e viver.  Quanto mais pudermos restaurar nossas “janelas quebradas” tanto melhor poderá ser nossa vida pessoal e de relações.

Estaremos, pois, fazendo bom uso daquilo que se denomina “inteligência emocional”, isto é, agir de forma inteligente com todo nosso aparato emocional em relação a nós mesmos, aos outros e ao ambiente. Seguir o “caminho do meio”, como disse Aristóteles, há vinte e cinco séculos passados --- a temperança.

Desse modo, a “teoria das janelas quebradas”, elaborada no âmbito da psicologia social, pode nos ajudar a olhar para nossa psique individual, buscando restaurar o que não está bem dentro de nós, assim como em nossas relações com pais, irmãos, parentes, amigos, amigas, pares de trabalho, vida social, relações com o ambiente.

Se estivermos bem, os outros também o estarão. “Janelas restauradas” estimulam que “outras janelas” se restaurem também. Isso se dá através daquilo que os físicos denominam de “ressonância”. Uma “janela restaurada” produz sua vibração, estimulando “outras janelas quebradas” a vibrarem na mesma frequência, restaurando-se também.

Afinal, “janelas quebradas” sempre geram desequilíbrios e fuga de energia da vida. Nossos traumas e suas fixações em nossas psiques representam, metafórica e efetivamente, nossas janelas quebras. Caso não sejam cuidadas, a tendência é que se ampliem cada vez mais. Contudo, “janelas restauradas”, por ressonância, tendem a estimular restaurações de outras, mais outras e... mais outras... “janelas quebradas”.

 


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