Avaliação do Usuário
PiorMelhor 

 Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMAS PSICOLÓGICOS, "JANELAS QUEBRADAS" E SUA RESTAURAÇÃO

Cipriano Luckesi

03/01/2013

Para melhor compreender o que exponho neste texto, haverá necessidade de ler o anterior, publicado neste mesmo site.

Tive um tio --- ele já faleceu --- que fora alcoólico e, com esforço e dedicação, deixara de fazer uso de bebidas alcoólicas.

Em um móvel da sala de sua residência, mantinha uma série de garrafas com bebidas com variados teores alcoólicos, entre elas whisky, cachaça, licores variados, vermouth...

Fiz-lhe, então, a seguinte indagação: “Meu tio, você já não faz mais uso de bebidas alcoólicas. Então, qual a razão para manter todas essas garrafas em sua sala de visitas?” Respondeu-me de forma tão simples como era seu modo de ser: “De fato, não faço mais uso de bebidas alcoólicas. Mantenho essas aí para as visitas, para você, por exemplo. Você e outros podem fazer uso delas. Eu não. Se tomar um gole, sigo tomando as bebidas de todas essas garrafas, de uma só vez”.

De modo real no cotidiano ou de modo simbólico, meu tio --- sem ser especialista em nenhuma área sociológica ou psicológica ---sabia do perigo de uma “janela quebrada”, mesmo depois de “restaurada”. Abrindo um “pequeno buraco”, ela continuará se deteriorando, se deteriorando mais... mais... e mais...

No cotidiano, denominamos essa dinâmica de vício. Vício é um hábito resistente à transformação. No início, no seu nascimento, ele apresenta uma aparente zona de conforto (se não de conforto, ao menos de facilidade) e segue em frente exigindo mais e mais. Uma “janela quebrada” --- como vimos no texto que publiquei imediatamente anterior a este, neste mesmo site --- conduz a deterioração do espaço, seja ele físico, geográfico ou psicológico. O vício --- no caso que aqui mais nos interessa --- cria no espaço psicológico uma zona facilitada de ação compulsiva.

Como lembrava meu tio, dado um passo na direção da restauração de uma experiência, de tal forma que se torne saudável, se se quer mantê-la saudável, não vale a pena “rondar as beiradas do abismo”. Afinal, “quem ronda o abismo pode ser tragado pelo precipício”.

Do relato dessa experiência do meu tio, pode-se fazer duas leituras. A primeira é: modificar um hábito depende de consciência, vontade e ação.

Depender de consciência significa que determinados hábitos nasceram em decorrência de traumas ou de assimilação de condutas impregnadas de valores culturais e familiares em nossa vida pregressa e que, ao longo do tempo, se manifestaram como um “caminho facilitado” para nossa sobrevivência; mesmo que, de algum modo, distorcido. Ainda que adquirido, o hábito parece ser nato em cada um de nós, o que significa que atua de modo inconsciente e permanente. Dada determinada circunstância, ele atua.

Agimos automaticamente em resposta a uma circunstância parecida com a que deu origem ao hábito que temos. Nesse contexto, agimos “naturalmente”, sem a consciência clara e assumida de que agimos dessa forma. Parece que nossas condutas são “naturais”. Parece que “naturalmente” sempre foram dessa forma, isto é, que, desde sempre, foram nossas. E, não foram, à medida que as praticamos por aprendizagem, mesmo que essas aprendizagens tenham se dado como resposta a situações variadas de nossa vida passada --- tenham sido elas traumáticas ou por proximidade sociocultural ou familiar.

Então, o primeiro passo é a consciência.

A convivência com o ambiente --- seja ele natural, cultural ou de relações com os outros, assim com nós mesmos---, a todo momento, nos sinalizam condutas que já não facilitam a vida, mas sim, ao contrário, a dificultam.

Freud nos lembrava de que “onde há resistência, há necessidade de investigação”. A resistência da realidade ao nosso agir --- seja ela qual for --- é um sinal de que alguma coisa merece atenção.

Consciência, pois, é o primeiro passo.

Porém, consciência é insuficiente para a mudança e a transformação. Para a transformação, há necessidade de --- junto com a consciência --- somar-se a vontade, assim como também a ação.

Tendo consciência de alguma conduta, crença ou valores que nos atrapalham viver de modo melhor e mais saudável, é preciso assumir: “Eu quero mudar”. E, então, mais um passo: “Como vou agir para mudar?” E, por último, encontrada a nova solução, mais um componente: o “exercício”. Podemos iniciar uma nova conduta, mas a anterior --- que já era um “caminho facilitado” --- tem uma tendência a ser mais forte que a nova conduta.

Haverá, pois, um período de atenção, decisão e exercício até que a nova conduta passe a ser “facilitada”, isto é, passe atuar como se fosse natural, passe a atuar de modo habitual.

Só, então, a “janela quebrada” será restaurada. Todo o processo é o caminho para se chegar a esse resultado.

A segunda leitura decorrente da experiência de meu tio, acima relatada, é que pós-restauração da “janela quebrada”, a vigilância não pode ser descuidada.

A restauração sempre apresentará uma fragilidade a mais do que onde não houve restauração. Então, no caso psicológico, um hábito antigo, que foi um caminho facilitado, facilmente, retornará ao seu padrão, caso não estejamos atentos e investidos na manutenção da nova conquista, pois que nosso inconsciente tem forças que nem sempre conhecemos.

Atenção e vigilância permanentes serão recursos fundamentais para que não caiamos inadvertidamente na mesma “janela quebrada” em nosso caminhar pela vida.

Consciência, decisão e ação são nossos aliados na transformação de hábitos que já não nos ajudam mais; ao contrário, nos atrapalham no processo de viver a vida de modo saudável e pleno.


_____________________________________________________________________________________________

OBSERVAÇÕES

  • Caso tenha desejo de fazer algum comentário ao texto, enviá-lo pelo "Fale conosco" deste site.
  • Informar se deseja que seja publicado seu "Comentário".

 _____________________________________________________________________________________________