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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

O ACOLHIMENTO COMO RECURSO CURATIVO E/OU CONSTRUTIVO 

Cipriano Luckesi

17/02/2013

No início deste ano de 2013, recebi de uma amiga, também psicoterapeuta, --- Aída Gláucia Baruch --- uma mensagem que dizia aproximadamente o seguinte: “Tenho acompanhado seus escritos no site do Curando e, então, envio-lhe o link abaixo, que contém abordagens sobre o tema dos traumas, dos quais você vem tratando”.

 Abri o link, li a matéria, que se intitula “Ambiente define resposta ao trauma”, e chamou-me a atenção a parte do texto que trata das “Crianças-soldados”, no Nepal. Trocamos algumas compreensões sobre o texto e, então, senti-me estimulado a partilhar com todos vocês, leitores dos meus escritos neste site, a compreensão que emergiu dessa experiência.

O autor do texto relata pesquisas que demonstram que o que faz a diferença nas situações traumáticas é o o modo de ser do ambiente onde a pessoa traumatizada se encontrará após a experiência traumatizante. Dentro dessa perspectiva, o acolhimento é a base para a cura e a restauração da experiência que rompeu o equilíbrio dinâmico da vida daquele que passou por essa experiência.

Abaixo segue o link, tendo em vista aqueles que desejam ler o texto por inteiro, e, depois, a parte do texto que aborda as “Crianças-soldados”, no Nepal, acima referida. 


Diz o texto:

Desde 2006, o Dr. Brandon Kohrt, psiquiatra e antropólogo médico da Universidade George Washington, acompanhou crianças nepalesas que retornaram a suas aldeias depois de servirem junto aos rebeldes maoístas durante a guerra civil de seu país, de 1996 e 2006.

Todas as 141 crianças que participaram do estudo, que tinham de 5 a 14 anos quando se juntaram aos rebeldes, passaram por experiências de violência e outros eventos considerados traumáticos, além de terem sido separadas da família. No entanto, o seu estado de saúde mental no pós-guerra não mostrou estar atrelado a sua exposição à guerra, mas à forma como elas foram recebidas pela família e pela aldeia.

Nas aldeias onde as crianças, [ao retornarem da guerra], foram estigmatizadas ou marginalizadas, elas sofreram níveis altos e persistentes de estresse pós-traumático. Mas nas aldeias em que [elas] foram bem recebidas e prontamente reintegradas (geralmente através de rituais ou convenções voltadas especificamente para isso), elas não vivenciaram mais sofrimento psíquico que outras crianças da mesma idade que nunca tinham sido levadas para a guerra. As consequências nocivas permanentes de ter sido uma criança-soldado, ao que parece, vinham não da guerra, mas do conflito e isolamento social posterior.

Essa constatação encontra respaldo em estudos sobre soldados americanos que retornam para casa: o transtorno do estresse pós-traumático é mais frequente entre os veteranos que não conseguem se reconectar com pessoas acolhedoras e novas oportunidades.

Será, portanto, que o evento traumático é caracterizado por mais do que apenas o evento em si, [ou seja], o evento acrescido de algum aspecto crucial do ambiente social, que tem potencial tanto de amenizar quanto de intensificar os seus efeitos?

Alguns cientistas duvidam que uma redefinição, como essa, esteja adequada. Carol Ryff, psicóloga da Universidade de Wisconsin, que realiza pesquisas sobre o tema da resiliência, diz que as novas descobertas não redefinem o trauma, pois apenas confirmam que "certas condições maximizam a probabilidade de aliviar os traumas".

Outros, porém, como a neurocientista e escritora Sandra Aamodt [certamente esta citação refere-se à Sandra Aamodt, neurocientista norte-americana], coautora de "Bem-vindo ao seu cérebro" e "Bem-vindo ao cérebro do seu filho", dizem que os estudos sugerem que não existe um trauma a ser aliviado até que o ambiente social que o indivíduo encontra posteriormente ao evento desempenhe seu papel.

Para Plotsky [certamente, o autor do texto se refere a Paul Plotsky, pesquisador que trabalha com a neurobiologia do stress], essa nova visão reforça o argumento em favor das intervenções sociais que têm demonstrado atenuar os efeitos de experiências traumáticas – especialmente programas pré-escolares para crianças que correm risco de trauma, assim como treinamento oferecido aos seus pais.

Não temos como desfazer as coisas ruins que acontecem. Mas talvez possamos reformular o ambiente que as sucede. Como Aamodt coloca[:] essa abordagem "tem a vantagem significativa de ser algo possível".


Os dados relatados e os comentários contidos neste texto indicam que a condição da cura do trauma é acolhimento. Mais que isso, chega a afirmar que a permanência, ou não, do trauma depende do ambiente favorável ou desfavorável à pessoa que passou pela experiência traumatizante.

Compatível com a compreensão exposta neste texto, relembro que David Boadella, criador da Biossíntese, no seu livro Correntes da Vida: uma introdução à biossíntese, nos lembra que “a receptividade viva de outro ser humano constitui o espaço de restauração das experiências negativas”. Confirmando essa compreensão, Ron Kurtz, psicoterapeuta psicossomático norte-americano, fazendo um depoimento a respeito de sua vida profissional, relatou que, quando jovem, acreditava que, num alto percentual, a cura psicológica decorria das técnicas que utilizava. Passados cinquenta anos na profissão, ele descobrira que a cura psicológica vinha, fundamentalmente, de sua presença amorosa e muito menos das técnicas utilizadas.

Numa tentativa de dar fundamentos à compreensão exposta no texto acima, cito ainda a compreensão de Stephen W Porges, no seu livro intitulado A teoria polivagal --- traduzido por Senses, Aprendizagem e Comunicação, Rio de Janeiro, 2012 ---, onde aborda --- de maneira larga, minuciosa e até mesmo repetitiva --- a compreensão da importância mediadora do nervo vago em nosso sistema nervoso e em nossas vidas, apontando a necessidade do acolhimento como um recurso de calma e bem-estar e, consequentemente, como recurso de envolvimento social.

Segundo esse autor, tendo por base numerosas investigações neurológicas realizadas em várias partes do mundo, mas especialmente nos Estados Unidos, diz que o nervo vago (conjunto de fibras nervosas que nascem no tronco cerebral e se estendem pelo corpo de cada um de nós) faz mediações para nossa sobrevivência, estimulando variados tipos de respostas. As circunstâncias nas quais se vive tanto pode estimulá-lo para o stress quanto para a calma.

Segundo ele, três são as possibilidades. Por vezes, as circunstâncias da vida, mediadas pelo nervo vago, nos impelem para o stress, fazendo nos servirmos de recursos de (01) luta ou fuga como recursos de sobrevivências [uma determinada circunstância exige a luta para garantir a sobrevivência, porém, outra exige a fuga com o mesmo objetivo]; por outras vezes, uma circunstância nos conduz à (02) imobilização tendo em vista reduzirmos a dor do ataque, do qual não conseguimos nos defender [as crianças se encolhem para não sofrer a ação do fantasma e certos animais, quando atacados, desmaiam e se anestesiam para não sofrer a dor da mordida; seres humanos enrijecem seus corpo, como também esquecem-se do que ocorreu em suas vidas para evitar a dor]; e, por último, (03) circunstâncias podem ser mediadas neurologicamente pelo nervo vago para a calma e bem-estar [quando acolhido o ser humano descansa e usufrui da experiência], o que propicia as condições para o envolvimento social confortável e fluido.

Por toda a argumentação científica, largamente utilizada pelo autor, fica configurada (se não comprovada) a hipótese de que o acolhimento do outro ser humano é a circunstância necessária para a calma, o bem-estar e o envolvimento social saudável de cada um de nós. Nessa circunstância, não necessitamos nem de lutar, nem de fugir, nem de nos imobilizarmos para não sermos vistos e atacados. Não precisamos de nos defender; vivemos fluidamente.

 Uma conversa acolhedora acalma; o canto da mãe junto do bebê traz calma e tranquilidade; um amigo acolhedor é uma bálsamo em nossas vidas; um médico acolhedor, por vezes, cura mais do que as medicações que prescreve; um bom atendimento num setor qualquer da vida social faz muito bem a todos nós, inclusive no comércio. Um balconista afável e atencioso tem o cliente como seu aliado; um “espinhoso”, o afasta. E, assim por diante.

Então, relato dos estudos citados acima nos ensina, de um lado, que necessitamos do acolhimento dos outros para viver, aprender, nos constituirmos e conviver com os outros; de outro lado, que necessitamos de aprender a acolher, a fim de permitir que o outro possa estar em nossa presença em calma, bem-estar e, assim, envolvido socialmente, de forma confiante, segura e confortável; afinal, o bem viver.

Nossa presença, nossos gestos, nosso tom de voz, nossa escuta, nossa disposição para dialogar,... e tantas outras atitudes acolhedoras, podem ser recursos de estados de cura entre todos nós seres humanos. A cura psicológica poderá e deverá dar-se para aqueles que necessitam e buscam uma ajuda profissional, mas também poderá dar-se no cotidiano onde alguém, amorosamente, acolhe outra pessoa e lhe dá guarida (todos nós conhecemos um ou outro caso, onde isso já ocorreu, inclusive em nossas vidas.).

Acolher é uma conduta difícil de ser praticada, devido o fato de que todos vivenciamos traumas em nossas vidas (Freud nos lembra que é impossível passarmos pela vida sem algum episódio traumático) e, então, usualmente, para sobreviver, aprendemos modos de agir que se apresentam desajeitados em nossas relações, reproduzindo, de algum modo, o que ocorreu conosco na relação com os outros. Todavia, como todos o relato anterior mostra, o acolhimento é necessário para uma vida confortável e sem stress.

Atenção e vigilância serão nossas aliadas na vida. Que está acontecendo comigo? Estou confortável ou desconfortável? De onde está vindo essa reação? Estou criando um espaço seguro e confiante para mim mesmo e para os outros? Meu modo de ser e agir acalma ou agita os estados emocionais? Como adulto, em minha família, sou capaz de acolher e gerar segurança? Como profissional, sou acolhedor? Essa e tantas outras perguntas merecem nossa atenção e vigilância frente ao que esses pesquisadores nos anunciam.


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