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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMA PSICOLÓGICO E REPARENTALIZAÇÃO

Cipriano Luckesi

10/03/2013 

Para este texto, tomarei o termo reparentalizar, com conotação material assim como com conotação metafórica, tendo em vista expressar a ideia de restauração. Nessa perspectiva, o processo de reparentalizar será assumido como um processo de restaurar alguma coisa que fora quebrada, rompida.

Para tanto, importa compreender a vida como um sistema, assim como sistêmicas são suas rupturas e, de igual forma, devem ser as restaurações possíveis. 

Tendo em vista tratar desse tema, sob o foco terapêutico e psicoterapêutico, o ponto de partida será a compreensão do que entendemos por sistema. Então, devido rupturas e restaurações darem-se num sistema, necessitamos de compreender sua fenomenologia. 

Nesse contexto, os movimentos de rupturas e de restaurações se dão sempre na busca do equilíbrio --- da homeostase, como é dito neurologicamente.

  

Em torno da compreensão do que significa um sistema 


Nascemos e vivemos num sistema em equilibração permanente. Nada no universo está isolado, seja nas galáxias e seus componentes, seja nos sítios estelares, seja no planeta terra, seja em nossa família, nosso bairro, a instituição onde atuamos. Afinal, vivemos num sistema e este existe em equilibração com tudo o mais que se dá, seja no universo próximo ou distante. As partes desse imenso sistema --- ainda que seja tautológico dizer isso --- existem, organizam-se e sobrevivem sistemicamente. 

Todos os movimentos que ocorrem, interna ou externamente, com os componentes de um sistema, no espaço e no tempo, afetam todos os seus componentes, como também o próprio  movimento. Qualquer movimento gera novos movimentos, realizando compensações para que o sistema como um todo, de alguma forma, mantenha-se estável. Sem compensações necessárias, qualquer sistema tenderia a sua autodestruição, à medida que minaria suas forças. 

Quem já viajou de avião, por exemplo, já viveu experiência semelhante a essa. Os comandos computacionais da aeronave tem por objetivo garantir permanentemente sua equilibração no ar, tendo em vista realizar o voo do modo mais estável possível. Uma rajada de vento que atua sobre uma das asas do avião será compensada por uma atuação na sua outra asa, de tal forma que possa permanecer estável. Uma descompensação inadministrável teria como consequência a sua destruição.

Em nosso corpo, verificamos processos assemelhados. Só para relembrar uma situação, quando temos um desequilíbrio na postura corporal, as solas dos nossos pés compensam esses desequilíbrios, criando engrossamento da pele, tendo em vista proteger os tecidos dos nossos pés. Os exemplos podem ser multiplicados aos milhares, tanto em nosso corpo como em todos os campos da existência no universo material e espiritual. Um desequilíbrio no sistema exige uma compensação, que é realizada independente de nossa vontade; o que não quer dizer que a compensação realizada seja compatível com o que desejamos e queremos. O que importa compreender; e, mais, que, num sistema, qualquer desequilíbrio operará uma compensação na direção de restaurar algum equilíbrio, seja ele qual for. E, quando um sistema não consegue se reequilibrar, por um tempo, permanecerá nas bordas do abismo. E, quando não tiver mais compensação possível, sobrevirá sua destruição.

  

Por uma compreensão do sistema sob as óticas sincrônica e diacrônica

 

Podemos abordar a compreensão do sistema de duas formas: sincrônica e diacrônica. Do ponto de vista sincrônico, podemos, didaticamente, tomar esferas de relações de objetos entre si, de seres vivos entre si, assim como de objetos e seres vivos ao mesmo tempo. Porém, sempre tudo atua em tudo, sincronicamente.

Essas relações são facilmente observáveis, no cotidiano, entre todos os objetos que nos cercam, no mundo próximo ou no mundo distante, como em nossas relações com aquilo que nos cerca, no mundo material, cultural e espiritual, assim como também em nossas relações entre nós seres humanos. Somos constituídos, vivemos e sobrevimos nesse conjunto de interações sistêmicas. Isso ocorre independente de nosso desejo e vontade. Dá-se e ponto. 

Da mesma forma ocorre no sistema observado diacronicamente. Passado, presente e futuro constituem um todo, um atuando sobre o outro. O passado atua no presente e na direção do futuro; o presente retoma o passado e volta-se para o futuro; o futuro é dimensionado pelo passado e pelo presente. A três dimensões do tempo, permanentemente, estão se relacionando. Não existe passado sem presente e sem futuro, como não existe presente sem passado e seu futuro, como também não existe futuro sem passado e presente. Isso se dá também em nossa trajetória biográfica; rupturas no tempo geram desequilíbrios na sua sequência temporal.

  

Sistema e reparentalização

 

Para haver re-parentalização, importa que tenha havido uma ruptura no sistema, seja sob a ótica sincrônica ou diacrônica, e, por outro lado, que se tenha o desejo de restaurá-lo de tal modo que funcione e flua, se não sem percalços, aos menos que seja com as menores interferências possíveis. 

Do ponto de vista sincrônico, reparentalizar  significa efetivamente colocar cada componente do sistema no seu devido lugar e papel, de tal forma que o todo flua equilibradamente. Então, reparentalizar signfica restabelecer as relações com o entorno, pessoas, espaços, objetos. Do ponto de vista diacrônico, aqui, estou assumindo com o significado restaurar os fluxos quebrados e/ou interrompidos entre passado, presente e futuro. Então, é um processo de reparentalizar partes nossas com nós mesmos, que, por rupturas em nossa vida, ficaram separadas e fixadas no passado.

No nosso caso, cujo centro de atenção é a abordagem terapêutica, estaremos, do ponto de vista sincrônico, tratando do restabelecimento, num determinado  momento do tempo, das relações entre pessoas, assim como das pessoas com o seu entorno, das hierarquias e das estruturas do amor num; e, diacronicamente, estaremos falando das rupturas e das necessárias restaurações do fluxo da vida ao longo do tempo. 

  

Reparentalização sob a ótica sincrônica

 

Bert Hellinger, criador da metodologia terapêutica denominada Fenomenologia das Constelações Familiares,  compreende que tudo na vida se processa bem quando funciona como sistema. Isso não porque se tenha um desejo de que seja dessa forma, mas sim devido a vida biológica, psicológica e espiritual estruturarem-se dessa forma. A quebra do funcionamento sistêmico da vida, em qualquer dos seus campos, expressa uma ruptura com o modelo da vida, tendo como conseqüência desequilíbrios. 

Entre os diversos contornos da vida está o fato de que nascemos no seio de um sistema, nossa família, um pai e uma mãe, irmãos, parentes próximos (tios, tias, primos, primas), ancestrais (avô, avó, bisavô, bisavó,...). Nossos pais, em nome de toda nossa ancestralidade, constituíram o canal pelo qual a vida chegou até nós. Eles se uniram para nos dar a vida. Essa dinâmica se deu e se dá independente de nosso desejo. Chagamos ao mundo por e nesse sistema. A vida escolheu esse caminho para prosseguir no tempo, inclusive multiplicando-se. Não há como fugir dele. Chegamos ao mundo e nele nos sediamos nesse contexto.

 Quebras desse sistema, sincronicamente, em determinados pontos do tempo, geram desequilíbrios e exigem compensações, que nem sempre se expressam de forma amistosa, segundo nossa compreensão cotidiana de “amistoso”, ou seja, certas compensações são exigentes. Um excluído do sistema será compensado com a exclusão de outro. Um excluído de um sistema familiar conduzirá a sua compensação através de outro excluído. Uma decisão e sua consequente ação indevidas, mesmo que praticadas com amor, exigirão compensações, nem sempre agradáveis. Por exemplo, por amor, uma criança deseja substituir os pais numa doença, o que significa interferir nos seus destinos; o mesmo pode ocorrer com os pais. E, tantos outros exemplos poderiam ser aduzidos. Muitas doenças decorrem dessas “decisões” indevidas, que permanecem no inconsciente e atuam. Caso o leitor esteja interessado nessa temática poderá recorrer aos livros de Bert Hellinger, hoje já traduzidos. Poderá começar por Simetria oculta do amor (Editora Cultrix) e seguir por Ordens do amor (mesma editora), assim por outras quase vinte obras já traduzidas e disponíveis no Brasil. 

O que importa no processo sincrônico é que cada componente sistema seja recolocado em seu devido lugar. Quando casa coisa, pessoa ou situação está em seu lugar, a paz reina e a vida flue. Pai deve estar no lugar de pai; mãe no lugar de mãe; diretor no lugar de diretor; piloto no lugar de piloto; marido no lugar de marido; esposa no lugar de esposa; filho no lugar de filho; irmão no lugar de irmão. E assim por diante.

 Essas ordens não podem ser quebradas? Podem, claro. Quando os movimentos ocorrem para que o sistema funcione melhor, são plenamente cabíveis; mas, quando ocorrem à revelia da ordem do sistema, consequências, minimamente incômodas, ocorrerão; contudo, por vezes, serão plenamente destrutivas. 

No caso, reparentalizar, em sentido próprio (=restabelecer as relações dentro do sistema familiar), será restaurar o equilíbrio do sistema. Num sistema tudo é importante, nada pode ficar fora nem suas leis podem ser infringidas, sem que existam consequências. Ao romper um sistema, importa estarmos conscientes e seguros de que assim o queremos com todas as consequências que daí advirão. Contudo, ao tomarmos conhecimento dos desequilíbrios criados pela ruptura do sistema, se desejamos restaurar o seu fluxo natural e livre, importará dar a cada componente do seu devido lugar. Então, o que fora rompido voltará a atuar também de modo sincrônico. 

Isso ocorrerá ao mesmo tempo de forma diacrônica. Restaurado o equilíbrio sincrônico do sistema, de modo consequente, ele também fluirá diacronicamente, à medida que se dá no espaço e no tempo. A ruptura ocorrida num “determinado momento do tempo” atuará nos tempos subsequentes em busca da compensação; mas também, a restauração ocorrida num “determinado momento do tempo” se expressará em bem-estar nos momentos subsequentes do tempo.

 

Reparentalização sob a ótica diacrônica

 

Aqui, o termo “reparentalização” será utilizado de modo metafórico; reparação não “entre pares”, mas “entre momentos no tempo”, entre partes de nossas vidas.  Sistema, aqui, é entendido como fluxo em equilíbrio entre as dimensões do tempo. Reparentalizar, então, significa restabelecer o que, em nossa vida, fora rompido na dimensão do tempo. Rupturas ocorridas numa tempo biográfico anterior, que nos prendem no passado, exigem uma reparentalização, isto é, uma reconexão com o fluxo da vida, que, de alguma forma e em algum ponto, permaneceu fixada e, por isso, estagnada. Então, usando o termo de modo metafórico, reparentalizar é reparentalizar partes nossas com nós mesmos, re-unir nossas partes que ficaram separadas por algum trauma, susto, abuso...; e que, dessa forma, atuam em nossas vidas, a partir de movimentos do inconsciente.

Algumas tradições xamânicas têm uma prática que se intitula "Resgate da alma", e, nela, realizam rituais que tem por objetivo reintegrar "partes da alma" que, por alguma razão, dela se separaram (numa compreensão psicológica, são nossos fragmentos, presos no passado em decorrência dos traumas que ocorreram em nossas vidas ou em decorrência de crenças herdadas e incrustadas em nosso inconsciente, de onde atuam). Essa compreensão ajuda a entender o conceito de "reparentalização sob a ótica diacrônica", que utilizo nesse texto.

Os traumas, que são acontecimentos abruptos, intempestivos e, na maior parte das vezes, devastadores, nos prendem no passado, no momento em que eles ocorreram. E, então, passamos a vida, inconscientemente, esperando que eles aconteçam de novo. Ao menor sinal da ameaça de alguma coisa negativa parecida com o que aconteceu vai acontecer de novo, nós nos colocamos em alerta e, usualmente, reagimos defensiva e intempestivamente, tendo em vista nos proteger da dor que já vivemos e não desejamos repeti-la. 

Nosso corpo e nosso sistema nervoso guardam as marcas de experiências passadas negativas, e, no presente, nos conduzem intempestivamente a algum tipo de defesa,  por isso, na maior parte das vezes, nossa reação ocorre de modo inadequado, à medida que, nem sempre, o que “se parece” é de fato “aquilo que nos pareceu”. 

Aqui, reparentalizar está significando, metaforicamente, “reparentalizar com o sistema do fluxo da vida”, a fim de que ela nos ajude a fluir equilibradamente em relação a nós mesmos, aos outros, ao ambiente e ao sagrado. Para tanto, importa que os acontecimentos do passado, que deixaram suas marcas dolorosas em cada um de nós, sejam, em primeiro lugar, dessensibilizados, para que, então, fluam, ainda que com cicatrizes, mas sem “ferimentos à flor da pele”. Cicatrizes, sim; ferimentos, não. 

Assim ocorrendo, estaremos vivendo o e no presente na perspectiva do futuro. Já não mais fixados nas ameaças de que aquilo que ocorreu no passado ocorrerá de novo. A reparentalização diacrônica, aqui, significa restaurar o fluxo da vida, para que cada um possa olhar para o passado e ser grato a ele (do jeito que ele foi), devido permitir que, hoje, sejamos quem somos (afinal, chegamos aqui em função de tudo o que nos aconteceu no passado). Não temos que elogiar, masoquistamente, as dores do passado; mas sim reconhecer-lhes um bom lugar em nossas vidas, para que, dessa forma, não mais nos oponhamos a elas. 

Ocorrendo a reparentalização dessa forma com o fluxo da vida no tempo, esse fato atuará para que, amanhã, sejamos quem devemos ser, segundo a tarefa de vida que temos. 

Reparentalizar será, então, reconectar, de modo, saudável com tudo o que ocorreu em nossas vidas, tendo em vista viver bem o presente na perspectiva do futuro, que também deverá ser fluído, ainda que percalços possam advir.


Concluindo


Acredito que a lição é reparentalizar sempre --- sincrônica (com os componentes do sistema) e diacronicamente (com o fluxo da vida no tempo) --- para que estejamos bem na vida, isto é, harmônicos, onde há lugar para todos e tudo, assim como para o nosso caminhar pela vida. 

Traumas ocorrem nas exclusões e desequilíbrios entre os componentes de um sistema, como também nas rupturas e desequilíbrios no fluxo temporal harmônico de nossas vidas.  Reparentalizar é restabelecer a dinâmica adequada e satisfatória entre os componentes de um todo, assim como o fluxo da vida.

Como isso ocorrerá? Pela tomada de consciência e consequente decisão de fazer diferente, de reconectar-se consigo mesmo (com tudo o que aconteceu em nossa vida), assim como com os componentes do sistema no qual estamos inseridos (familiar, profissional, institucional... ecológico, planetário). Se assim ocorrer, estaremos bem, porque harmônicos com o que nos cercou e nos cerca, assim como com nosso passado, com nosso presente e com nosso futuro.

 

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