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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMAS PSICOLÓGICOS DO NASCIMENTO E RECURSOS PSICOTERAPÊUTICOS

Cipriano Luckesi

Salvador, 01/04/2013

O Tema

Traumas psicológicos ocorrem em todas as idades, desde a concepção até a morte de cada um de nós, e podem ter como base episódios únicos em nossas vidas (abruptos e, usualmente, intempestivos), como também podem decorrer de circunstâncias existenciais que tiveram uma duração longa em nossas vidas, ou em crenças impregnadas em nossa psique, com origens familiares, religiosas ou sócio-culturais.

 Neste texto, daremos atenção somente aos denominados “traumas do nascimento”. Para tanto, utilizaremos as concepções de Stanislav Grof --- tchecoslovaco, médico, psicoterapeuta e pesquisador dos estados de consciência --- sobre as Matrizes Perinatais, como pano de fundo para o tratamento que daremos ao tema.

As matrizes perinatais tratam, como bem expressa a denominação, daquilo que ocorreu ou ocorre “em torno” (peri) do nascimento (natal).

Groff, entre outros estudos, dedicou-se a compreender os estados de consciência no período da vida intrauterina, usando controladamente recursos bioquímicos, como o LSD, tendo em vista gerar estados regressivos em seus colaboradores de investigação, o que permitia a cada um deles acessar e fazer contato com episódios positivos e negativos ocorridos nesse período de vida.

Com esse recurso pode, inúmeras vezes, conduzir os sujeitos de suas pesquisas a situações da vida embriológica, pré-natais e natais. Através de suas investigações e consequentes descobertas, estabeleceu o que denominou de matrizes perinatais, que configuram momentos sucessivos do processo de gravidez e nascimento, onde se fazem presentes experiências que fluem, assim como experiências que emperram a vida.

Na periodização dos eventos do nascimento, ele delimitou quatro momentos e denominou-os de Matrizes Perinatais Básicas (MPB I, II, III, IV). Os interessados em aprofundar essa compreensão poderão ver o livro Stanislav Grof, Além do cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia, Editora McGraw-Hill, São Paulo, 1987.

A primeira matriz tem a ver com o período de formação do embrião e do feto; a segunda configura o período em que a criança decide nascer; o terceiro compreende a passagem pelo canal vaginal, o canal do parto; e a quarta tem a ver com o nascimento propriamente dito.

Em cada um desses períodos, ou matrizes, ocorrem episódios que fluem ou que fixam a criança em pontos determinados do processo formativo inicial ou do processo do nascimento, fatos que irão repercutir na vida do individuo.

Os episódios que se manifestam como recursos de vida saudável são ótimos. Porém, existem também os episódios que marcam negativamente a psique da criança e que, mais à frente, atuarão de modo inconsciente, expressando-se sob a forma de sintomas, que dificultam a vida.

Os sintomas, como eventos impeditivos, podem emergir na infância, na adolescência ou na vida adulta, manifestando que há alguma experiência do passado, registrada no inconsciente, que atua de forma automática no cotidiano da pessoa. Os recursos, por outro lado, se expressam na vida como um todo, fazendo parte do modo saudável de ser e agir de cada um.

Grof, em seus estudos sobre a vida intrauterina, investiu em compreender as matrizes perinatais em duas dimensões: a dimensão psico-corporal e a dimensão transpessoal.

Para este texto, faremos uso somente da dimensão que inclui os componentes psicológico e psicossomático, consequente com as abordagens que temos feito sobre o trauma nos textos anteriormente escritos e publicados neste site.

Em torno da dimensão transpessoal das experiências intrauterinas, existem posições teóricas diferenciadas assumidas por Stanislav Grof e por Ken Wilber, filósofo norte-americano, estudioso da fenomenologia da consciência.

Não entraremos nesse campo polêmico. Interessa-nos, pelo momento, a compreensão que Grof nos oferece sobre as matrizes perinatais, onde ocorrem eventos biográficos positivos e/ou negativos que se fixam na memória pessoal de cada um.

Caso alguém tenha desejo de aprofundar compreensões  sobre a polêmica relativa aos estados transpessoais de consciência e vida intrauterina, poderá ver com proveito a coletânea organizada por Donald Rothberg e Sean Kelly, initulada Ken Wilber em diálogo, Editora Madras, São Paulo, 2005.

 

Matrizes perinatais

Então, quais são as ocorrências nas matrizes perinatais que podem se manifestar em recursos ou em sintomas que facilitam ou dificultam a vida? Recursos de vida saudável ou traumas?

A Matriz Perinatal Básica I (MPB I) configura-se pelas experiências que se dão no período que se estende da concepção ao momento em que o bebê decide nascer.  O principal elemento dessa matriz é a falta de limites, uma vez que há uma simbiose entre feto e mãe; propriamente não há diferenciação entre eles. O mesmo alimento, o mesmo oxigênio, a mesma circulação sanguínea atuam, simultaneamente, na mãe e no feto.

As memórias desse período, do ponto de vista positivo, têm a ver com vida tranquila, lembranças do "útero agradável", sensações de “êxtase oceânico", sensação de integração. A vida no útero materno manifesta-se imperturbada, as condições são próximas do ideal. E dessa forma alguém poderá dirigir-se pela vida a fora.

Do lado negativo, caso a gravidez tenha sido perturbada por doenças maternas, pelo uso de fumo, bebidas alcoólicas, drogas psicoativas, desequilíbrios químicos, esses eventos certamente deixarão marcas que se manifestarão em sintomas psicológicos.

Então, nas sessões regressivas, apresentam-se lembranças do "útero desagradável", das crises fetais, de doenças incompreensíveis, de revolta contra a mãe, de tentativas de aborto, de sensações de ameaça, de sensações físicas desagradáveis, tais como arrepios, espasmos, gostos desagradáveis, sensação de envenenamento. Certamente, na vida, tudo poderá parecer “não prestar”.

A Matriz Perinatal Básica II (MPB II) configura-se por um antagonismo do bebê com a mãe. Neste estágio do parto, o ponto inicial do canal do parto, o colo do útero ainda não está aberto e, então, enormes pressões atuam sobre o bebê que não pode sair, pois que o acesso ao canal vaginal ainda não está aberto. Há uma pressão do útero vindo de trás e um impedimento à frente, pois que o colo do útero está fechado.

O conforto do estágio anterior não existe mais, a pressão sobre o corpo do bebê pode estar atrapalhando a circulação sanguínea, o fornecimento de oxigênio, assim como o fornecimento de calor. Registra-se, então, na memória do bebê uma situação ameaçadora. Sensação de enclausuramento e sufoco.

Paradoxalmente, a única saída seria aceitar completamente e render-se à situação aparentemente sem saída, que o bebê não consegue compreender, daí a permanência de marcas na memória.

Os sentimentos relacionados são: ausência de saída, ausência de sentido da vida, estar em uma situação sem solução possível. Posteriormente, essa experiência poderá se manifestar como impossibilidades na vida.

Numa atividade regressiva de investigação, esses sentimentos certamente virão à tona, permitindo que a pessoa acesse, faça contato, encontre uma solução e integre essa experiência na sua vida, à medida que sobreviveu à mesma. A experiência em si já não existe mais, mas somente sua memória, ao mesmo tempo, corporal e psicológica. O sujeito sobreviveu, mas o fragmento infantil ainda está lá, acreditando que ainda vai morrer apertada e sufocada.

Modos incomuns de agir e que se manifestam como impedimentos presentes na vida pessoal de cada um, a qualquer momento da existência, podem levar a pessoa a fazer contato com esses eventos da vida perinatal, manifestando-se em modos de ser como “sentir-se entre a cruz e a espada”, “encontrar-se em becos sem saída”, “sentir-se em situações que aprisionam e não têm saída”, “ter sentimentos de impotência, como também sentimentos de abandono”, ou ainda “sensação de que o mundo está contra ela”, “sensação (crença) de que nada dá certo em sua vida”, entre outras possibilidades. Nessas circunstâncias, a mãe não parecerá ao bebê uma “boa mãe”, pois que é bem possível que permaneça na memória inconsciente a imagem de que ela nada fazia para aliviar esse quadro.

Quando ocorre dessa etapa do nascimento ser muito marcante, pode manterá pessoa fixada sentimentos emergentes nesse momento, com todos os seus componentes negativos.

A Matriz Perinatal Básica III (MPB III) configura-se pela luta entre nascimento e morte. Nesse estágio do parto, ainda existem pressões sobre o bebê, porém o canal de parto encontra-se com alguma abertura. Costumamos dizer que "uma luz no final do túnel."

Envolve pressões mecânicas esmagadoras sobre o bebê provenientes dos movimentos uterinos, dores, e, muitas vezes, um alto grau de anóxia e asfixia. Intensa ansiedade é um elemento concomitante natural de tal situação. Variados eventos podem ocorrer, como haver interrupção da circulação sanguínea em função das contrações uterinas e da compressão das artérias uterinas, como haver enrolamento do cordão umbilical em torno do pescoço ou o cordão poder estar esmagado; como, ainda, placenta pode se soltar e bloquear a passagem (placenta prévia). Em alguns casos, ainda, o feto pode inalar vários tipos de materiais biológicos. Pode haver a necessidade de intervenção mecânica, como o uso de fórceps ou mesmo cesariana.

Na terceira matriz, o colo do útero abre-se e a cabeça do bebê entra no canal de parto, superando a situação anterior, na qual parecia não haver saída.

Permanecem, contudo, situações da fase anterior, tais como contrações do útero e a  sensação de opressão. Existe a luta pela sobrevivência contra o temor da morte, porém,  já há “uma luz no final do túnel”; há um esperança de que a luta chegue ao seu final de forma bem sucedida. É uma etapa do nascimento ligada com a força (investimento na luta de sobrevivência), dor, ansiedade, excitação e prazer.

Aqueles que permanecem aprisionados nessa matriz poderão apresentar sintomas vinculados às impossibilidades, à exaustão de tanto investir e não conseguir resultados positivos, ao cansaço, à entrega no que está posto; mas, também pode se manifestar em sintomas de busca constante e irrefreada de alguma coisa, usualmente com a conotação de “travessia” (metaforicamente, poder-se-á dizer que, ainda, está em atravessar o canal de parto).

Nas sessões psicoterapêuticas, essas experiências são revividas como memória, possibilitando sua dessensibilização e seu reprocessamento, ocorrendo o que Freud denominava de catarze, subsidiando ao sujeito a possibilidade de “investir na vida” ou de abrir mão de “correr tantos riscos para chegar do outro lado”.

A Matriz Perinatal Básica IV (MPB IV) --- experiências do nascimento. Essa última matriz está relacionada com os momentos que se sucedem à saída do canal de parto e aos cuidados imediatamente recebidos por parte da mãe, dos médicos e enfermeiras. Saída da escuridão e do esforço e chegada à luz, ao relaxamento. Esse é o ponto culminante do parto. “Dar a luz” como expressão para designar o parto significa “chegar à luz”, após uma longa travessia de pressões, esforços, dores e sufocos. Agora, o descanso.

Como em todas as matrizes, aqui existem fortes sentimentos envolvidos, como de satisfatoriedade e bem-estar. Se o parto ocorreu sem interveniências inesperadas, sem anestesia em excesso e com cuidados ideais, então, as memórias associadas são as melhores possíveis. As sensações para o bebê e para a pessoa na sequência de sua vida será de bem-aventurança, de sentimento de vitória e de merecimento da vida, sentimento de ser amado e querido, sentimento de amor incondicional, sentimento de liberdade após um grande esforço, sensação de ter deixado para trás os eventos difíceis e estressantes.

Muitas vezes, o parto necessita ser realizado com uma dose alta de anestesia, ou então precisa ser controlado tendo em vista postergar ao máximo a saída do bebê até que este “amadureça fisiologicamente mais um pouco”, ou até que o médico possa realizar os procedimentos necessários ao nascimento, ou ainda o parto pode ser programado e realizado através de uma cesárea. Num processo de nascimento, podem ainda ocorrer outros eventos como ser necessário o uso de fórceps, o cordão umbilical estar enrolado no pescoço do bebê, a criança pode ter nascido quase-morta, sem conseguir respirar, ou muito dopada pela anestesia e desorientada. Ou seja, muitas variáveis podem interferir num processo de nascimento, deixando marcas negativas na memória, que atuarão no posterior cotidiano da pessoa. Eventos negativos no momento mesmo do nascimento poderão deixar registrado “um gosto” amargo pela vida ou a vida como uma possibilidade ameaçadora..

 

Cuidados com as experiências traumáticas e sua integração no cotidiano

Freud chegou a afirmar que é impossível alguém passar pela vida ilesa a algum tipo de experiência traumática. Assim sendo, como cuidar das ocorrências traumáticas, no caso, da vida intrauterina? E, certamente como cuidar de traumas psicológicos em geral na vida de cada um de nós?

Um modo é a dinâmica da vida. Muitos dos episódios traumáticos desse período de vida (ou de outros períodos) são dessensibilizados e reprocessados pela própria dinâmica da vida, sem que nos demos conta de quando isso pode ter ocorrido.

Um bom acolhimento por parte da mãe, do pai, tio, tia, irmãos, primos primas, professores, professoras, religiosos... ajuda, e muito, a percebermos que podemos estar bem com e na vida.

Caso isso não pudesse ocorrer, todos os seres humanos necessitariam de se socorrer de um consultório psicoterapêutico. No entanto, nem todos os seres humanos terão essa necessidade e, por isso, seguirão na vida, e outros, que tiveram essa necessidade, nem se deram conta delas; e, dessa forma, também seguiram pela vida a fora.

Que recursos psicoterapêuticos estão disponíveis para os cuidados das experiências psicológicas traumáticas? Vale mencionar algumas possibilidades entre certamente outras possíveis.

De início lembramos a “livre associação”, metodologia criada e utilizada por Freud, perdurando até hoje entre seus seguidores, seja como recurso de abordagem psicológica de experiências traumáticas, seja como base de outras metodologias. Não podemos nos esquecer do pioneirismo de Freud nos estudos e cuidados das “coisas” da psique.

A livre associação tem a ver com o fato de que uma “palavra” é um portal para um campo imenso de experiências psicológicas pessoais, assim como para experiências sócio-culturais que não deixam de estar vinculadas às pessoas, carregadas de cargas emocionais. Popularmente, diríamos que “uma coisa puxa a outra”.

A livre associação possibilita o acesso e o contato com conteúdos emocionais guardados no inconsciente, fato que possibilita o que o próprio Freud denominou, como lembramos acima, de catarze, ou seja, dessensibilização e reprocessamento do episódio traumático, o que vai possibilitar prosseguir na vida, sem a “ferida” do trauma, ainda que com a sua memória.  Uma memória de um acontecido; mas, não uma ferida viva e camuflada no cotidiano, reascendendo a cada circunstância assemelhada à anterior.

Então, essa metodologia vai de uma palavra a outra palavra, de um episódio a outro episódio, de um sentimento a outro sentimento. Uma cadeia de episódios e memórias que, vagarosamente, se aproximam do fulcro da dor, permitindo olhar para ela, tomar consciência do que aconteceu e reprocessa-la, isto é, encontrar-lhe um novo significado, permitindo que se possa estar mais adequada à dinâmica da vida.

A seguir, podemos nos lembrar dos recursos psicoterapêuticos provenientes da psicossomática, a partir de Wilhelm Reich e de todos os seus desdobradores, através de experiências de renascimento. São atividades conduzidas e assistidas por profissionais gabaritados e competentes, que possibilitam reviver as cenas contidas nas memórias inconscientes psicocorporais ocorridas no processo da gravidez e do nascimento. Nem todas as cenas estarão presentes numa sessão, mas serão acessadas as mais atuantes e significativas, comprometidas com os sintomas que estão se apresentado para cada um no momento em que estiverem buscando ajuda.

A Biossíntese, área de conhecimento criada por David Boadella, psicoterapeuta inglês, que se encontra na linha de desdobramento da psicossomática reicheana, atua com os traumas usando o contato com a “sensação sentida” das experiências psicocorporais e seu reprocessamento através de imagens e visualização.

O EMDR, sigla formada pelas primeiras letras de “Eye Movement Desensitization and Reprocessing, é uma metodologia criada por Francine Shapiro, psicoterapeuta norte-americana, que tem por objetivo, através de movimentos bilaterais (direito-esquerdo) dos olhos ou de toques em outras partes do corpo, permitir o acesso e o contato com episódios traumáticos, dessensibilizando-os e reprocessando-os; permitindo, então, a pessoa encontrar uma via de integrar esses episódios no seu cotidiano, de forma saudável.

Afinal, tantas são as possibilidades. Diz-se, religiosamente no seio do cristianismo, que, “para entrar na Casa do Pai, existem muitas portas”; e, leigamente, se diz que “são muitos caminhos conduzem à Roma”.

Nós, do “Curando a criança ferida dentro de nós”, como atuamos numa vivência com duração de três dias e meio, nos cuidados com o trauma psicológico, nos servimos de variados recursos, cujas origens são a psicanálise, a psicossomática, a biossíntese, atividades corporais, partilhas, meditação, convivência, danças sagradas, terapia da metáfora, processos de reparentalização, atividades lúdicas. O objetivo é fazer contato com experiências restritivas da vida e experienciar possibilidades de reprocessá-las, integrando-as no cotidiano, com um olhar e uma compreensão novos. O objetivo é acessar reprocessar feridas e encontrar recursos internos para viver melhor.

Certamente que existirão outras metodologias significativas para acessar, fazer contato e reprocessar cenas traumáticas do nascimento ou de outras fases da vida. Por enquanto, parece-nos suficiente, a todos os cidadãos, saber que existem possibilidades sistematicamente elaboradas para cuidar dessas experiências; e, aos profissionais da área, lembrar que muitos são os recursos aos quais podemos recorrer, sendo que, para tanto, importa preparar-se da melhor forma possível para utilizá-los.

 

Depoimentos

Para dar um exemplo do que pode ocorrer num processo de cuidados com experiências ou cenas traumáticas nos períodos pré-natais e natais, relato, a seguir, uma experiência pessoal, que, acredito são memórias de experiências ocorridas na II e III Matrizes.

Minha mãe sempre relatou que eu nasci muito rapidamente. Quase que foi um vapt-vupt, segundo ela. Todavia, em minha memória inconsciente, existe um fragmento que diz que o contrário. Nas sessões psicoterapêuticas, às quais me submeti, apareceram experiências como: “que eu demorei muito tempo no canal de parto”; “que me debati muito”; “que fiquei com ódio de minha mãe que não me ajudava a sair daquele tubo”; “que ninguém me ajudava”. Lamúrias muitas!

Importa frisar que, em minha vida, esses sentimentos não eram e não são memórias conscientes. O sintoma que eu tinha se expressava em sonhos, com situações onde me encontrava “dentro de um tubo”, “num lugar apertado e sem saída”, ou coisa semelhante, sempre acordando num estado ameaçador e de angústia.

Vagarosamente, com os cuidados que tive, acessando e fazendo contato com as cenas, que foram traumáticas para mim, esses sonhos foram se distanciando e, hoje, quando eles ocorrem, tenho um modo de agir que me ajuda: acordar e ficar ciente de que “não estou num tubo, num esgoto ou num lugar fechado, mas sim numa cama familiar, dormindo junto aos meus entes queridos, assim como com os objetos que me são familiares”. Depois, em paz, retomo o sono.

Essas experiências abriram possibilidades de reparentalização, em primeiro lugar, comigo mesmo: tomei consciência de que eu sobrevivi, estou aqui, não permaneci lá. Porém, ao mesmo tempo, pude desfazer o “equívoco” em relação à minha mãe o tomar consciência do quanto ela optou por mim, me amou e cuidou de mim. Sem ela, assim como sem meu pai, não estaria aqui, vivendo como vivo e fazendo o que faço. Graças a eles e, em torno deles, a todos que me deram continência para viver e prosseguir na vida.

Acrescento ainda alguns relatos que obtive num artigo publicado na internet no link --- http://www.josemariamartins.com.br/index.php?option=com_content&view=frontpage&Itemid=75. Esses relatos ocorreram após sessões de acesso e cuidados com as memórias intrauterinas ou em decorrência das atividades de parto.

Um deles diz: “Revivi meu nascimento: muito desespero; num momento algo parecia que ia me matar (o cordão umbilical) e foi muito difícil nascer. A sensação depois de ter nascido foi ótima, muito alívio, ou melhor, esta sensação só veio quando já estava aconchegada junto de minha mãe. Era como se tivesse sendo invadida por muita paz e segurança. Depois .... era como se revivesse a sensação de quando o cordão saiu do meu pescoço, eu sobrevivi à morte: era a vida. Antes desta experiência vinham em minha mente muitas imagens de sufocação, apavoramento, principalmente relacionadas com água (medo de afogar).

Outro: “O nascimento é chocante. É como se estivesse dentro de um túnel e o aperto no peito é o que causa maior aflição. Difícil dizer em poucas palavras tudo o que acontece. Na verdade não dá para descrever nada. Só sentir.”

Outro ainda: “Vivi o parto com raiva. Depois que eu nasci ficou bom, senti vontade de mamar, foi muito gostoso. Senti muita falta de minha mãe. Antes estava com dor no peito. Quando gritei pela mãe e chorei, a dor passou. Senti vontade de morder e estraçalhar. No final, muita paz, senti que eu tenho a cabeça no lugar, que eu posso conduzi-la e cuidar de mim mesma.”

Mais um, que revela um estado de êxtase nos processos de gravidez e nascimento: “Liberdade. Me senti no útero. Me senti muito bem como neném. Relaxamento.”

Ainda outro: “Parto, senti muito medo de não conseguir, não ter força para sair de dentro do útero e por um instante me senti sufocada ao passar a cabeça.”

 

Concluindo

Esses depoimentos revelam que, após sessões de acesso, contato e reprocessamento das cenas relativas aos processos de gravidez e parto, ocorrem as duas dinâmicas de reparentalização que descrevi no texto anterior deste site: reparentalização consigo mesmo, portanto, com a vida (reparentalização diacrônica, biográfica) e, ao mesmo tempo, reparentalização sincrônica.

Do ponto de vista diacrônica, aprende-se que sobreviveu e, por isso, não está mais aprisionado no passado e pode-se prosseguir na vida.

Sincronicamente, de início, está a reparentalização com a mãe, que parece, ao fragmento de memória traumática, não ter feito nada para que saíssemos do sufoco do processo de nascer. Depois, então, descobrimos o quanto ela foi a heroína da história, investindo todas as suas forças no desejo de que nascêssemos bem e belos para a vida.

E, então, através da reparentalização com a mãe, podemos restabelecer todas as outras reparentalizações sincrônicas, com pai, irmãos, tios e tias, avós..., com o meio onde nascemos, assim como com o mundo.

Afinal, há recursos para se encontrar um modo de ultrapassar experiências traumáticas, integrando as memórias no cotidiano de todos nós. Bendito seja!

Importa buscar e se diz que “quem procura, acha”.


 

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