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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

Traumas psicológicos, vazios  e impasses na dinâmica da vida

Cipriano Luckesi

22 de maio de 2013

 Freud afirma que a marca do trauma é uma condensação de elementos que compõem o quadro da cena ou situação do trauma, condensam-se fechados num bloco. David Grove diz que trauma configura-se como um fragmento biográfico congelado no tempo. O momento imediatamente anterior ao trauma que é congelado no tempo, fazendo com que se fique na expectativa, ainda que inconsciente, de que aquele fato irá ocorre r de novo. Fico a pensar que o trauma --- por qualquer uma dessas compreensões --- gera um “vazio” na jornada biográfica do traumatizado.

Acredito que tanto Freud quanto Grove têm razão em seus entendimentos e suas expressões relativas à experiência traumática, à medida que tanto a condensação dos elementos de um episódio num todo fechado, como um fragmento biográfico congelado no tempo indicam que um “vazio” foi gerado e, depois dele, tudo permanece fragilizado.

Permanece a falta de alguma coisa que deveria ter tido o seu curso normal na existência; uma quebra que atua, de forma automática e intempestiva, a partir do inconsciente, usualmente, tornando nossa vida mais difícil do que ela o é.

No artigo anterior, publicado neste site, trouxe alguns casos diretamente relacionados com a compreensão desenvolvida por Grof sobre os traumas do nascimento. Neste texto, desejo abordar experiências traumáticas, que se expressam como “vazios” na vida da pessoa e cuja cura depende da retomada da cena traumática, juntamente com sua posse, que se dá através da compreensão do que ocorreu e da percepção de que isso ocorreu no passado, ciente de que, no presente, vive-se experiência diferente da antiga. Afinal outra experiência.

Nos primeiros artigos que publiquei neste site, lembrei a todos que o trauma nos prende no passado, e, desse modo, a primeira aparência que chega até nós de que alguma coisa, já acontecida, poderá ocorrer de novo, reagimos intempestivamente, praticamente sem escolha. Quando nos damos conta, já reagimos.

Ao inconsciente parece que a cena que aconteceu vai acontecer de novo, daí, de imediato, dirigir a reação automática e intempestiva de cada um de nós, que passamos por situações desse tipo. Afinal, uma reação de defesa. O ditado popular que traduz essa situação diz que “gato escaldado tem medo de água fria”.

Freud nos lembra que o inconsciente é atemporal, aquilo que aconteceu num passado longínquo parece que está acontecendo agora. E Joseph LeDoux, em seu livro,  Cérebro emocional, nos lembra que as amígdalas cerebrais contêm toda a memória de medo pessoal, familiar e ancestral, o que lhe permite associar o “medo gerado pelo que aconteceu  e retido na memória” com o “temido no presente”, isto é, a amigdala diz --- “o que aconteceu vai acontecer de novo; vamos evitar” --- e, então, atua automática e intempestivamente. O que faz com que, abruptamente, tenhamos reações indevidas a muitas experiências no presente.

Importa ter presente que a amigdala cerebral atua independente de qualquer análise, raciocínio ou entendimento lógico da realidade. Dada uma circunstância que ela detecta como ameaçadora, ela reage por si mesma, determinando nossas condutas. E, nisso, ela age tanto para nos salvar quanto para nos atrapalhar. É um tanto cega. À uma businada de carro em nossas costas, saltamos, de imediato e de modo abrupto, para o lado e nos salvamos de um impacto; mas, ao mesmo tempo, diante de uma expressão facial de alguém, no presente, que se pareça com uma expressão parecida de alguém que nos excluiu no passado, faz com que a amigdala entenda que vai acontecer de novo e, então, nos conduz à reação imediata de defesa.

A expressão facial da pessoa, no presente, pode não ter nada a ver com exclusão, contudo, como se parece com a situação anterior, a amigdala não tem dúvida... age defensivamente.

Os “vazios psicológicos” em nossas vidas se dão a partir de experiência traumáticas nas mais variadas idades, assim como nas nos mais variados setores da vida e permanecem registrados em nossa memória como uma possibilidade ameaçadora que devemos evitar antes que aconteça novamente.

Esses vazios aparecem na experiência de cada um de modos muito variados. A sintomatologia dos traumas pode se expressar, através de expressões e sintomas como: “parece que não tenho as pernas”; “toda vez que vou falar em público, quase tenho um troço”; “não consigo viajar de avião; me sinto sufocado(a)”; “toda vez que necessito de fazer xixi numa casa alheia, sinto um sufoco enorme, além da vergonha de ter que solicitar para ir ao sanitário”; “me dá um branco na cabeça”; “parece que sou arrastado(a) por uma correnteza”; “sou muito frágil, não aguento ser abandonado(a)”; “me sinto como se fosse outro(a)”; “me sinto um bagaço”; e muitas outras expressões do vazio emergem nas sessões psicoterapêuticas ou nos estudos sobre trauma.

A seguir, citarei algumas experiências, sem que, para tanto, cuide de uma ordem lógica das mesmas. São situações traumáticas, que produziram, assim como podem produzir, vazios em nossas vidas e que atuam.

Durante meus períodos de formação na área psicoterapêutica, tive uma colega que era quase “invisível”, passava imperceptível pela vida. Ela trouxe para o grupo sua experiência por mais de uma vez. Anterior à gestação da qual nasceu, uma irmã havia nascido e permanecido poucos dias junto aos pais. Faleceu logo após o nascimento.

Pois bem, quando minha colega nasceu, recebeu o nome da irmã falecida, como se tivesse vindo ao mundo para substituí-la, especialmente preenchendo o vazio que ficou na vida dos pais. Dessa forma, ela poderá ter preenchido o vazio psicológico dos pais, sob pena de esvaziar-se de si mesma. Não se sentia no mundo, no seu lugar. Vazio total de si mesma.

Após muitas sessões, através das quais vivenciou, atravessou, compreendeu a complexidade de sua vida e, vagarosamente, foi se dando conta de que, de alguma forma, seu ser precisara, no passado, desse expediente para sobreviver, mas, agora, já não havia mais necessidade desse expediente; na mesma medida em que tomava conta de seu passado biográfico, foi transformando seu modo de ser.

Ao final de nossa estada juntos, ela mudara seu modo de se vestir, passara a colocar côr em suas roupas, e iniciara a maquiar-se. Modos de agir que revelavam “estar no mundo”. O vazio fora sendo preenchido pela sucessiva posse de si mesma, o que também, do ponto de vista energético, permitia que sua irmã, pudesse ser ela mesma, aquela que falecera logo após o parto.

Conheci pessoas que não chegaram a receber o nome do irmão ou da irmã, que os antecederam na vida e faleceram logo após o nascimento, mas, foram tomados como substitutos dos falecidos, fator que gerou em suas vidas um vazio enorme. Afinal, não se sentiam a si mesmos, pois que, de alguma forma, eram os outros, que haviam partido.

Os pais, na sua dor, não necessariamente fazem isso de forma consciente; mas, podem fazê-lo, usualmente, de uma forma inconsciente. Contudo, o substituto sente-se no vazio, à medida que não é “ele” o esperado, mas sim o “outro”.

Existe ainda as situações daqueles ou daquelas que, não sendo substitutos de irmãos ou irmãs que faleceram logo após o nascimento, são esperados como alguém que vem para cumprir uma missão, seja ela qual for. E, então, essa pessoa não se sente como a esperada, pois que a esperada era uma “pessoa especial” e ela não é especial; é somente ela mesma. Então, passa a vida sem se “encontrar” nesse lugar, nesse papel e nessa personalidade. Não era ela a esperada, mas outra pessoa.  Daí, o vazio, de um lado, da decepção de não ser a esperada e, de outro, o vazio de “não ser capaz” de preencher o papel para o qual era esperada, não ser capaz de preencher a expectativa.

Experiências semelhantes, mas por outros caminhos, podem ocorrer com os adotados. Ainda que os pais adotivos sejam amorosos, cuidadosos, atentos, provedores, há um vazio de base; o vazio da ausência dos pais biológicos. Eles existiram, caso contrário, essas pessoas não teriam chegado a esta existência, porém, elas não sentem essa presença no ponto de partida, que é a “recepção neste mundo”. Elas tem dentro de si o vazio da ausência da raiz, do suporte, da sustentação. Foram “abandonados” na raiz de suas vidas nesta experiência existencial. Fica um vazio.

Porém, as situações, acima citadas, tm a ver com nascimento ou situações próximas do nascimento. Outras experiências traumáticas também deixam “vazios”, que ocorreram para além das circunstâncias do nascimento também deixam vazios.

Uma criança que apanhou em excesso na sua infância, usualmente, tem dentro de si o vazio do medo do que vai acontecer estando presente qualquer autoridade. Recentemente, vivi uma experiência que ocorreu da seguinte forma: Eu estava sentado na cabeceira de uma mesa retangular no momento de um almoço. Junto de mim, havia uma mulher, já dos seus quarenta anos, que falava e gesticulava, contando alguma coisa. Outra pessoa, que estava mais distante na mesa, passado um tempo, numa conversa disse: “Fiquei com muito medo de que você repreendesse a nossa colega. Ela falava tanto. Fiquei a esperar sua reação”. Perguntei-lhe como era a relação entre as pessoas em sua casa, durante sua infância. Ela respondeu que “seu pai era a autoridade máxima e o mínimo deslize, segundo o modo de ser e pensar dele, nós éramos castigados”. Um vazio de confiança nas próprias atitudes como válidas e que merecem respeito. O pai, certamente, agia dessa forma acreditando que estava educando seus filhos da melhor maneira possível. Mal sabia, o quanto estava gerando um vazio (um trauma) na psique dos seus filhos.

Há aproximadamente trinta anos passados, vivi uma experiência de estar dentro de um incêndio no 14º andar de um hotel. Permaneci nessa situação das 11 horas da noite até às 6 horas da manhã do outro dia, momento em que os bombeiros conseguiram debelar o fogo. Por anos sucessivos, não havia como hospedar-me em um hotel num andar superior ao 2º . Além disso, qualquer cheiro de fumaça acordava-me durante o sono da noite. Um vazio na confiança em dormir em algum hotel. Para o meu inconsciente, a ameaça de um incêndio era iminente.

Bem, múltiplas e variadas experiências poderão ser registradas como traumáticas e que geraram vazios em nossa psique e que atuam no cotidiano de nossas vidas.

Muitas dessas experiências foram ou são curadas pela própria dinâmica da vida. Novas experiências, nas quais não se repetiram em conformidade com o que esperava nosso inconsciente que se repetisse; ou mesmo novas pessoas, que chegaram em nossas vidas e que nos permitiram confiar de novo nas possibilidades de estar junto das pessoas e com elas conviver de modo saudável; professores, professoras atentos às nossas necessidades; amigos e amigas que puderam os ouvir e nos dar suporte para seguir na vida. Enfim, muitas experiências do cotidiano podem nos auxiliar a dar conta de nossas experiências traumáticas, que, por vezes, nem mesmo chegamos a ter consciência de que elas existiam.

Todavia, existem experiências traumáticas profundas que não são ultrapassadas e integradas no transcorrer da vida cotidiana. Então, elas necessitarão de ajuda terapêutica ou psicoterapêutica. De Freud para cá, sabemos disso. 

E, nesse interim de tempo, muitas metodologias foram desenvolvidas. Desde a “livre associação”, desenvolvida por Fred e seus seguidores; às atividades corporais, abordadas por Wilhelm Reich e seus desdobradores; ao EMDR (Eye movement desensitization and reprocessing), recentemente desenvolvido por Francine Shapiro, nos USA; à terapia da metáfora, desenvolvida por David Grove, um psicólogo neozelandês, que vivera radicado nos Estados Unidos; e tantas outras possibilidades.

O que importa saber é que os vazios emocionais necessitam ser preenchidos, seja pelas experiências da vida cotidiana, seja pela busca de uma ajuda profissional. Afinal, temos o direito de viver sem sobressaltos e, sem as excessivas ameaças emergentes das ameaças incrustadas em nosso inconsciente. Podemos e devemos, para o nosso bem e de todos, ultrapassar e integrar nossas experiências negativas do passado.


 

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